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Lula reeleito: o que esperar da economia nos próximos quatro anos

A reeleição de Lula como presidente do Brasil desafia conciliar a manutenção das políticas sociais e a retomada do crescimento.
Imprensa | 26/10/2026

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente do Brasil coloca no centro da agenda econômica o desafio de conciliar a manutenção das políticas sociais com o controle das contas públicas, a redução dos juros e a retomada do crescimento. Com espaço orçamentário limitado e o endividamento público em trajetória de alta, o próximo mandato precisará combinar prioridades distributivas com medidas capazes de recuperar a confiança dos investidores e ampliar a capacidade produtiva do país.

Na avaliação de Ahmed Sameer El Khatib, professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), o cenário exige uma estratégia fiscal de médio prazo, com atenção especial ao crescimento das despesas obrigatórias e à eficiência dos investimentos públicos. O desafio será preservar mecanismos de proteção social sem comprometer a sustentabilidade das contas públicas.

As projeções para 2027 ajudam a dimensionar o cenário: o mercado estima crescimento de 1,1% para o Produto Interno Bruto (PIB), inflação de 4,8%, taxa Selic de 12,5% ao final do ano e dívida bruta equivalente a 87,6% do PIB. Os indicadores apontam para um início de mandato marcado por crescimento moderado, crédito caro e restrições para a expansão dos gastos públicos.

“Quanto menor o crescimento econômico, mais difícil se torna aumentar a arrecadação de maneira sustentável e reduzir a relação entre dívida e PIB, especialmente quando o custo de financiamento do setor público permanece elevado”, avalia o professor.

Contas públicas serão um dos principais desafios

Para o professor da FECAP, uma das prioridades do novo governo deverá ser desacelerar o crescimento das despesas obrigatórias, que incluem gastos previdenciários, benefícios assistenciais e despesas com pessoal. O avanço desses compromissos reduz a margem disponível para investimentos e outras políticas públicas, mesmo quando o governo consegue cumprir formalmente suas metas fiscais.

Entre as medidas que podem contribuir para o ajuste estão a revisão de renúncias tributárias, o aperfeiçoamento da gestão dos programas sociais, o combate a pagamentos indevidos e a avaliação de mecanismos que fazem determinadas despesas crescerem automaticamente. O docente ressalta, porém, que a solução não passa necessariamente por cortes indiscriminados nos programas de transferência de renda.

Essas políticas têm papel relevante na redução das desigualdades e na sustentação do consumo, especialmente porque as famílias de menor renda tendem a destinar uma parcela maior de seus recursos à aquisição de bens e serviços essenciais. O desafio é assegurar que os benefícios sejam bem direcionados e financeiramente sustentáveis.

“Programas de transferência de renda deveriam estar articulados com iniciativas de qualificação profissional, educação financeira, inclusão produtiva e acesso ao emprego formal”, afirma Ahmed. Na avaliação do docente, essa integração pode contribuir para ampliar a autonomia econômica das famílias, sem retirar abruptamente a proteção social.

A trajetória da dívida também será determinante. Para estabilizar o endividamento em relação ao PIB, o país precisará combinar resultados fiscais consistentes com condições que favoreçam o crescimento econômico. Quando os juros permanecem elevados em relação à expansão da economia, o esforço necessário para conter a dívida se torna maior.

Redução dos juros dependerá da confiança fiscal

Embora a redução da Selic seja importante para estimular o crédito, os investimentos e o consumo, o professor El Khatib destaca que a decisão não depende exclusivamente do governo federal. A política monetária é conduzida pelo Banco Central no âmbito do regime de metas de inflação, e o ritmo de eventual flexibilização dependerá da evolução dos preços, das expectativas inflacionárias, do câmbio e das condições internacionais.

A credibilidade da política fiscal terá influência nesse processo. Quando investidores percebem risco de crescimento persistente da dívida pública, tendem a exigir remuneração maior para financiar o governo. Os juros de mercado mais elevados encarecem o crédito para empresas e famílias, desestimulam projetos produtivos e podem enfraquecer a atividade econômica.

Para o especialista da FECAP, a apresentação de medidas capazes de desacelerar estruturalmente as despesas e estabilizar o endividamento poderá reduzir a percepção de risco. Esse movimento também pode contribuir para diminuir pressões cambiais e favorecer o controle da inflação.

O ambiente externo, contudo, continuará sendo uma variável importante. “Juros elevados nos Estados Unidos, mudanças nos preços internacionais do petróleo e fluxos de capital para mercados emergentes podem limitar a redução dos juros brasileiros, mesmo que haja avanços na condução da política econômica doméstica”, acrescenta.

Crescimento dependerá de produtividade e investimento

Além das contas públicas, o próximo mandato terá de enfrentar obstáculos estruturais, como baixa produtividade, deficiências na educação, custos logísticos, complexidade regulatória e dificuldades de financiamento de longo prazo. Na avaliação do professor da FECAP, a recuperação econômica não poderá depender indefinidamente da expansão do consumo ou de estímulos fiscais e creditícios.

Investimentos em infraestrutura, habitação, educação, inovação e transição energética poderão contribuir para acelerar a atividade econômica entre 2028 e 2030. “Para que seus efeitos sejam duradouros, porém, os projetos precisarão ser selecionados com critérios rigorosos e, sempre que possível, atrair recursos privados”.

No mercado de trabalho, o professor chama a atenção para a diferença entre ampliar a ocupação e elevar a produtividade. Uma economia pode gerar empregos sem registrar ganhos expressivos de renda real quando a produção por trabalhador avança lentamente. Educação, tecnologia, qualificação profissional e modernização das empresas serão fundamentais para sustentar aumentos de renda no longo prazo.

As políticas de valorização do salário-mínimo e estímulo ao consumo também exigirão atenção. Embora possam fortalecer o comércio e melhorar o poder de compra, seus efeitos dependerão da capacidade produtiva da economia e da evolução dos custos empresariais. “Além disso, aumentos reais do salário-mínimo repercutem em benefícios previdenciários e assistenciais vinculados ao piso nacional, pressionando as despesas obrigatórias”.

Se a expansão da demanda ocorrer sem ganhos correspondentes de produtividade e oferta, parte dos benefícios poderá ser absorvida pela inflação. O aumento da renda também precisará ser acompanhado de medidas de educação financeira e de enfrentamento do endividamento excessivo das famílias.

“Os ganhos de renda precisam se converter em melhoria duradoura das condições de vida, e não apenas em expansão temporária das vendas e do crédito”, afirma o professor.

O professor finaliza afirmando que o desempenho econômico do novo mandato dependerá da capacidade de compatibilizar proteção social, previsibilidade fiscal e investimentos que aumentem a produtividade. “A possibilidade de acelerar o crescimento existe, mas estará condicionada à implementação das medidas e à recuperação sustentável das condições de financiamento da economia”.

O especialista: Ahmed Sameer El Khatib é Doutor em Finanças e Doutor em Educação, Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais, graduado em Ciências Contábeis, Pós-doutor em Contabilidade e Pós-doutor em Administração.  É graduando e doutorando em Psicologia Clínica. É professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e professor adjunto de finanças da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

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