O crescimento do discurso sobre empreendedorismo entre os jovens não significa, necessariamente, que as novas gerações estejam abandonando o emprego com carteira assinada. É a opinião de Edson Ricardo Barbero coordenador do Centro de Empreendedorismo da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP). Para o docente, o fenômeno revela uma transformação mais ampla na relação com o trabalho, marcada pela busca por autonomia, flexibilidade, desenvolvimento e maior sentido na atividade profissional.
Dados do estudo internacional GUESSS de 2023, realizado com mais de 226 mil estudantes universitários de 57 países, ajudam a relativizar a ideia de que os jovens simplesmente deixaram de desejar um emprego formal. Segundo a pesquisa, 65,9% pretendiam trabalhar como empregados logo após a conclusão dos estudos, enquanto 30% se imaginavam fundadores de um negócio cinco anos depois. Para Barbero, os dados indicam que, para parte dos jovens, empreender pode ser uma possibilidade futura, depois da aquisição de experiência profissional.
A pesquisa também aponta que a intenção de empreender permaneceu relativamente estável desde 2013 nos países acompanhados ao longo de diferentes edições. “Há sinais de que muitos jovens desejam mais autonomia e mais opções de carreira, mas isso não significa que estejam rejeitando o emprego formal”, afirma o professor.
O interesse pelo empreendedorismo também pode estar relacionado à forma como as novas gerações enxergam o lugar que o trabalho deve ocupar na vida. Barbero observa que parte dos jovens cresceu acompanhando pais que trabalhavam muitas horas e, em alguns casos, voltavam para casa cansados ou frustrados. A experiência pode contribuir para que questionem um modelo profissional baseado em longas jornadas e pouca disponibilidade para a vida pessoal.
“Minha hipótese é que parte da insatisfação se dirige à maneira como o trabalho é organizado: excesso de horas, pouca escuta, relações difíceis e falta de sentido”, explica. Para o professor, autonomia, flexibilidade e perspectivas de crescimento não são necessariamente incompatíveis com o emprego formal. “O desafio é humanizar o trabalho.”
Empreendedorismo como liberdade e necessidade
Outro fator que ajuda a explicar a força do discurso empreendedor é a combinação entre oportunidade e necessidade. Há jovens que identificam problemas de mercado e desenvolvem negócios a partir de uma oportunidade, mas também aqueles que recorrem ao trabalho por conta própria como forma de gerar renda diante das dificuldades de inserção profissional.
Na pesquisa GEM de 2025 sobre o Brasil, cerca de sete em cada dez empreendedores em estágio inicial concordaram com a afirmação de que empreendiam para ganhar a vida porque os empregos eram escassos. Barbero ressalta, porém, que esse dado não significa que essas pessoas empreendam exclusivamente por necessidade, já que diferentes motivações podem coexistir.
O professor também chama atenção para o fato de que uma taxa de desemprego baixa não significa necessariamente que todos tenham acesso a trabalho de qualidade. No primeiro trimestre de 2026, o IBGE registrou 37,3% dos ocupados na informalidade e uma taxa de subutilização da força de trabalho de 14,3%.
Nesse contexto, o empreendedorismo pode assumir significados diferentes. “Há quem empreenda ao encontrar uma oportunidade promissora e há quem comece a vender um produto ou serviço porque precisa gerar renda. Essas motivações podem coexistir”, afirma.
Redes sociais podem romantizar o empreendedorismo
Para Barbero, o interesse genuíno em criar negócios convive com uma imagem romantizada do empreendedorismo, especialmente nas redes sociais. De um lado, existem jovens que identificam problemas concretos, estudam seus mercados e se preparam para desenvolver uma empresa. De outro, circula a ideia de que empreender é um caminho rápido para ganhar dinheiro, controlar completamente a própria agenda e deixar de ter chefes.
A realidade, segundo o professor, é mais complexa. Empreender envolve atividades pouco associadas à imagem idealizada do empreendedor nas redes sociais, como vender, negociar, administrar o caixa, corrigir erros e lidar com a possibilidade de fracasso. “Empreender pode ser uma escolha muito boa, mas envolve risco, dedicação e tarefas pouco atraentes para uma postagem”, afirma.
Boa ideia não é sinônimo de negócio viável
A distância entre o desejo de empreender e a capacidade de sustentar uma empresa é outro ponto que merece atenção. Para o professor, um dos principais riscos enfrentados por quem começa sem preparo é confundir uma boa ideia com um negócio viável.
Antes de abrir uma empresa, é necessário entender se existem clientes dispostos a pagar pelo produto ou serviço, quanto custa atender esses clientes, como formar preços, como vender e por quanto tempo será possível sustentar a operação até que ela gere receita suficiente. “Sem esse trabalho, até um produto interessante pode fracassar por falta de caixa”, alerta.
Nesse processo, experiência profissional, estudo, mentoria e testes em pequena escala podem ajudar a reduzir riscos. O contexto financeiro também precisa ser considerado. A possibilidade de perder renda não tem o mesmo peso para quem conta com apoio familiar e para quem é responsável pelo próprio sustento ou pelo da família.
A própria ideia de liberdade, frequentemente associada ao empreendedorismo, precisa ser relativizada. Embora o empreendedor possa ter maior autonomia para escolher caminhos, ele continua sujeito às demandas de clientes, fornecedores, parceiros e, em alguns casos, investidores. “Autonomia não é independência absoluta”, resume Barbero.
Segundo ele, quem está começando costuma subestimar o tempo necessário para conquistar clientes, a irregularidade da receita e a dificuldade de se desligar do negócio. A expectativa de trocar um horário fixo por mais tempo livre pode resultar, na prática, em disponibilidade quase permanente.
O emprego formal também pode mudar
A força do discurso empreendedor também coloca uma questão para as empresas: como tornar o emprego formal compatível com as expectativas de profissionais que valorizam autonomia, flexibilidade e propósito?
Para Barbero, a resposta passa por mudanças concretas na gestão. Entre elas estão dar clareza sobre prioridades, confiar nas equipes, permitir participação nas decisões, desenvolver lideranças capazes de ouvir, oferecer perspectivas reais de crescimento e respeitar o tempo fora do trabalho. “Flexibilidade sem carga de trabalho razoável pouco resolve. E propósito precisa aparecer na maneira como a empresa trata empregados, clientes e sociedade, não apenas em uma frase na parede”, afirma.
Nesse sentido, o professor evita tratar o empreendedorismo como uma escolha necessariamente superior ao emprego formal. Para ele, existem diferentes trajetórias profissionais e elas podem se alternar ao longo da vida.
A própria expressão “perfil empreendedor” deve ser usada com cautela. Segundo Barbero, não existe apenas um tipo de empreendedor: pessoas técnicas e reservadas podem ter espaço no mundo dos negócios tanto quanto profissionais comunicativos e voltados a vendas.
Entre as competências importantes estão compreender clientes, planejar, administrar finanças, aprender com erros, construir relações e persistir diante de resultados que demoram a aparecer. Também é fundamental o autoconhecimento: entender que tipo de trabalho a pessoa gosta de realizar, com quais níveis de incerteza consegue conviver, de qual renda precisa e quais conhecimentos ou parceiros ainda precisa desenvolver.
Entre o emprego e o empreendedorismo
Para Barbero, a relação dos jovens com o trabalho está, de fato, mudando, mas isso não permite resumir o fenômeno à ideia de que “os jovens não querem mais emprego”. “A CLT continuará sendo uma escolha valiosa para muitas pessoas; outras vão querer abrir e desenvolver negócios. Também haverá quem passe por diferentes formas de trabalho ao longo da vida”, afirma.
O professor alerta ainda para o risco de chamar de empreendedorismo uma ocupação precária apenas porque a pessoa trabalha por conta própria. Um profissional que depende de uma plataforma e não consegue definir aspectos centrais do serviço que presta, por exemplo, vive uma realidade diferente daquela de alguém que cria e desenvolve uma empresa. Por isso, segundo Barbero, é necessário observar o grau real de autonomia, a renda, os riscos assumidos e a proteção disponível antes de classificar uma atividade como empreendimento.
Para o professor, a transformação também passa pela mudança nas promessas feitas aos jovens. Se gerações anteriores cresceram com a expectativa de uma trajetória relativamente estruturada (estudar, conseguir um bom emprego, progredir e se aposentar), os jovens de hoje recebem mensagens muitas vezes contraditórias sobre estudo, carreira, estabilidade e futuro.
Esse cenário pode abrir espaço para novas escolhas, mas também para discursos simplistas sobre enriquecimento rápido e abandono da trajetória profissional tradicional. “Empreender, trabalhar como empregado ou combinar experiências em momentos distintos são caminhos possíveis. A boa escolha começa com informação, autoconhecimento e condições concretas para decidir”, conclui Barbero.
O especialista: Edson Ricardo Barbero é professor do Mestrado Profissional em Administração da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP). Doutor e Mestre em Administração de Empresas pela Universidade de São Paulo, onde também se formou em Engenharia de Produção. É Visiting Scholar do Instituto Tecnológico de Monterrey. Autor de livros e artigos e consultor de empresas com dezenas de projetos realizados.






