
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma pauta tecnológica e passou a ocupar espaço nas decisões estratégicas das organizações. No entanto, à medida que os investimentos avançam, surge um desafio fundamental: como garantir que a governança, a definição de responsabilidades e a capacitação das equipes acompanhem esse movimento?
Uma pesquisa global da Thoughtworks, conduzida pela Censuswide com 3.200 executivos de dez países, incluindo 400 brasileiros, mostra que 39,8% das empresas brasileiras apontam o CEO como principal influenciador das decisões sobre inteligência artificial, quase o dobro da média global, de 23,1%. O Brasil apresenta o maior percentual entre os países pesquisados.
O protagonismo da alta liderança demonstra a relevância estratégica atribuída à IA. Entretanto, os dados também revelam dificuldades na organização das responsabilidades relacionadas à tecnologia. Para Leonardo Fabris Lugoboni, professor e pesquisador da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), essa combinação evidencia um desafio de governança: transformar o direcionamento estratégico em estruturas capazes de garantir decisões coordenadas, controles adequados e responsabilização clara.
“Quando a inteligência artificial avança mais rápido do que a governança, o desafio deixa de ser apenas tecnológico. A organização precisa definir quem decide, quem implementa, quem monitora os riscos e quem responde pelos resultados”, afirma o docente
A expansão da IA exige clareza nas responsabilidades
Segundo a pesquisa, 72% das empresas brasileiras já possuem um Chief AI Officer (CAIO), executivo responsável pela agenda de inteligência artificial. Apesar disso, 35,8% das organizações relatam conflitos ou indefinições de responsabilidades entre essa função e a do Chief Information Officer (CIO), responsável pela área de tecnologia da informação.
O dado chama a atenção porque evidencia que a criação de novas posições executivas, por si só, não garante uma estrutura de governança eficiente. Quando as atribuições do CAIO, do CIO e das áreas de negócio não estão claramente definidas, podem surgir sobreposições de autoridade, lacunas nos controles e dificuldades para identificar os responsáveis pelas decisões.
“Criar uma função executiva para liderar a inteligência artificial é apenas uma parte da solução. É necessário estabelecer limites de atuação, mecanismos de supervisão e critérios claros de responsabilização para que as decisões sejam tomadas de forma coordenada”, diz Lugoboni.
Orçamento descentralizado, riscos compartilhados
Outro resultado relevante é que 25,8% dos orçamentos de inteligência artificial no Brasil são geridos diretamente pelas áreas de negócio, percentual superior à média global de 20%. A participação dessas áreas pode aproximar a tecnologia dos problemas reais da organização e acelerar a identificação de oportunidades. Entretanto, a descentralização dos investimentos exige mecanismos que garantam padrões mínimos de segurança, conformidade e avaliação de riscos.
A pesquisa também aponta que 88% dos líderes entrevistados afirmam que a adoção de IA avança mais rapidamente do que a governança. Além disso, 90% acreditam que a área central de TI continuará sendo responsabilizada por falhas de segurança ou compliance em ferramentas adotadas por outras áreas, mesmo quando não participou da decisão de compra.
“Não é coerente descentralizar as decisões de investimento e adoção de ferramentas sem estabelecer quem responde pelos riscos envolvidos. A governança precisa acompanhar o modelo de decisão da empresa, com responsabilidades proporcionais à autoridade de cada área.”
Capacitação também faz parte da governança
A pesquisa apresenta ainda uma diferença importante entre a confiança dos executivos e os investimentos em preparação das equipes. No Brasil, 64,8% dos executivos demonstram confiança na preparação de suas organizações para a inteligência artificial, acima da média global de 53,4%. Por outro lado, o investimento em capacitação da força de trabalho corresponde a 12,2% no país, ante 15% na média global.
Essa diferença merece atenção porque a adoção responsável da IA depende não apenas da tecnologia disponível, mas também da capacidade das pessoas de compreender suas limitações, identificar riscos e utilizar as ferramentas de maneira adequada. Treinamentos, políticas internas, critérios de validação e canais de comunicação são elementos que ajudam a transformar diretrizes de governança em práticas cotidianas.
“Isso não significa que investir em capacitação, isoladamente, resolva todos os desafios. A maturidade organizacional também depende de processos, controles, monitoramento e avaliação contínua dos resultados”, acrescenta o professor de FECAP.
Governança precisa acompanhar a estratégia
Os dados da Thoughtworks revelam uma questão que ultrapassa a adoção da inteligência artificial: a velocidade das decisões estratégicas nem sempre é acompanhada pela evolução das estruturas de gestão.
Uma organização pode investir em ferramentas avançadas, criar posições executivas e ampliar o uso da tecnologia. Ainda assim, se não definir responsabilidades, preparar suas equipes e estabelecer mecanismos de controle, poderá ampliar também sua exposição a riscos.
A questão central, portanto, não é apenas quanto a empresa investe em inteligência artificial ou quantas áreas já utilizam essas ferramentas. “A pergunta mais importante é: a organização está estruturada para garantir que as decisões sobre inteligência artificial sejam tomadas com responsabilidade, que os riscos sejam monitorados e que existam responsáveis claramente definidos quando algo não funciona como esperado?”
Em um ambiente no qual a inteligência artificial ganha espaço nas decisões empresariais, a maturidade não será determinada apenas pela velocidade de adoção, mas pela capacidade de integrar tecnologia, estratégia e governança.
O especialista: Leonardo Fabris Lugoboni é doutor em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). É professor da graduação e do Mestrado da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e atua como pesquisador e consultor nas áreas de estratégia, indicadores de desempenho e governança corporativa.





