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O que estamos chamando de normal? Esgotamento não deve ser tratado como normal, segundo especialista

O esgotamento provocado pelo cansaço, sobrecarga e dificuldade de desconectar do trabalho têm se tornado experiências recorrentes.
Imprensa | 06/11/2026

O cansaço permanente, a sobrecarga de demandas e a dificuldade de desconectar do trabalho têm se tornado experiências recorrentes na vida de muitos profissionais. Mas até que ponto essas situações devem ser consideradas parte natural da rotina? Para Maria De Lurdes Zamora Damiao, psicopedagoga e professora da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), a naturalização do esgotamento exige uma reflexão que vai além da capacidade individual de lidar com a pressão e envolve também os ambientes, as relações e as culturas organizacionais.

A ansiedade constante, a pressão por resultados e a sensação de estar sempre em dívida com alguma demanda são situações que, quando se tornam frequentes, podem deixar de ser questionadas. A partir de sua experiência com temas relacionados à felicidade, ao bem-estar, à saúde mental e ao desenvolvimento humano, a docente observa a importância de ampliar o olhar sobre essas questões e compreender como as condições de trabalho e as relações estabelecidas nas organizações influenciam a experiência das pessoas.

“Nem tudo o que é comum é saudável”, destaca a professora. Segundo ela, durante muito tempo, as iniciativas voltadas ao bem-estar concentraram esforços em ajudar os indivíduos a lidar melhor com situações de pressão. Embora esse tipo de suporte seja importante, a discussão precisa avançar para a análise dos ambientes em que as pessoas estão inseridas.

Nesse sentido, a especialista aponta que é necessário refletir sobre as expectativas estabelecidas, as práticas de gestão, as relações profissionais e as culturas organizacionais que podem contribuir para a sobrecarga. A dificuldade de estabelecer limites, a pressão constante por desempenho e a falta de espaço para reconhecer necessidades individuais são aspectos que merecem atenção.

“Também é necessário refletir sobre as relações que estabelecemos, as expectativas que criamos, as culturas que fortalecemos e os espaços que oferecemos para que as pessoas possam ser humanas, com limites, emoções e necessidades”, afirma.

A professora ressalta que bem-estar e resultados não devem ser tratados como objetivos opostos. Em sua avaliação, ambientes nos quais as pessoas se sentem cuidadas, respeitadas e valorizadas podem favorecer o engajamento das equipes e contribuir para relações profissionais mais sustentáveis. A busca por desempenho, portanto, não precisa estar associada à naturalização da sobrecarga, mas pode caminhar junto com a construção de condições mais saudáveis de trabalho.

Saúde mental e riscos psicossociais nas organizações

A necessidade de repensar os ambientes de trabalho também ganha relevância diante das discussões sobre saúde mental e gestão dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Nesse contexto, a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) reforça a importância de as organizações olharem para fatores que podem afetar a saúde dos trabalhadores, considerando aspectos relacionados à organização das atividades e às relações profissionais.

Para Maria De Lurdes, esse movimento representa uma oportunidade para que as empresas revisitem suas práticas, fortaleçam as lideranças e desenvolvam uma cultura organizacional que valorize o cuidado com as pessoas. Mais do que atender a uma exigência legal, a gestão dos riscos psicossociais deve ser compreendida como parte de uma estratégia de desenvolvimento organizacional.

“Cuidar das pessoas não é apenas uma questão de conformidade. É uma escolha que impacta a cultura, o engajamento, os resultados e a sustentabilidade das organizações”, ressalta a docente, que ministra curso sobre NR-1 e Gestão dos Riscos Psicossociais da FECAP, abordando a importância da gestão desses fatores no contexto das organizações.

A professora defende que o desafio das organizações está em ir além de ações pontuais de bem-estar e promover uma reflexão sobre as práticas que orientam o cotidiano profissional. Isso inclui compreender como as demandas são distribuídas, quais expectativas são estabelecidas e de que maneira as lideranças contribuem para a construção de ambientes saudáveis.

Em um cenário no qual o esgotamento pode ser confundido com uma exigência natural da vida profissional, questionar o que é considerado normal torna-se um passo importante. Para a especialista, o desenvolvimento humano e o desempenho organizacional podem caminhar juntos quando o cuidado com as pessoas passa a fazer parte da cultura das instituições.

A especialista: Maria de Lurdes Zamora Damião é psicóloga, professora e Mestre em Gestão de Pessoas, com mais de 40 anos de experiência em educação e desenvolvimento humano. Atua na graduação e pós-graduação em temas como Liderança, Gestão de Pessoas, Carreiras e Soft Skills, e é coach acadêmico e psicóloga da FECAP. Coautora de livros sobre liderança, comunicação e empatia, possui formação em Psicologia, Pedagogia e Consultoria de RH, além de certificações internacionais em coaching, análise comportamental e desenvolvimento humano. Palestrante e facilitadora, dedica-se à formação de líderes conscientes e ao fortalecimento das relações humanas.

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