Professor da FECAP relata experiência em curso de desenvolvimento econômico na Universidade Fudan, em Xangai, e mostra como tecnologia, escala e estratégia chinesas podem inspirar novos modelos de negócios no Brasil
Por: Tiago Slavov
Ao chegar ao campus da Universidade Fudan, em Xangai, eu não tinha muita certeza do que esperar da primeira aula do curso sobre desenvolvimento econômico chinês. O edifício da School of Management tinha aquele ar de uma universidade que investiu muito em tecnologia. Dentro da sala de aula, uma tela sensível ao toque de quase três metros ocupava toda a parede. Cada participante recebeu um fone de ouvido para acompanhar a tradução simultânea.
O detalhe, por si só, já dizia algo sobre o tipo de programa em que eu estava entrando: uma formação concebida para um público internacional, mas ministrada inteiramente em mandarim.
A aula foi conduzida pelo professor Li Chao, também conhecido pelo nome ocidental “Jack”. Sua trajetória ajuda a entender a perspectiva que orientaria a apresentação. Formado em medicina clínica, com MBA pela própria Fudan, ele é pesquisador sênior do Centro de Pesquisa em Empreendedorismo e Capital de Risco da universidade e possui experiência nos setores financeiro, médico e de tecnologia.
Antes de atuar com educação executiva e consultoria em Xangai, Jack passou por empresas de investimentos e gestão, com atuação relacionada a empresas de tecnologia e equipamentos médicos, além de ter trabalhado durante três anos na alemã Allianz como gerente de operações para a região Ásia-Pacífico.
Foi justamente essa combinação entre finanças, indústria, tecnologia e educação executiva que deu o tom particular da aula. Mais do que uma apresentação acadêmica tradicional, o encontro se aproximou de uma análise de cenário, com gráficos, tabelas comparativas e diferentes perspectivas sobre o desenvolvimento chinês.
Em determinado momento, uma frase projetada na tela resumiu a tese central da apresentação: a disputa entre China e Estados Unidos não seria apenas uma questão comercial, tecnológica ou financeira, mas parte de uma transformação histórica mais ampla na ordem mundial.
Muito além da disputa entre China e Estados Unidos
A aula foi dividida em três grandes blocos: a disputa ideológica entre as duas potências; a chamada “guerra fria tecnológica”, envolvendo temas como semicondutores e inteligência artificial; e, por fim, a dimensão geopolítica da competição, com a comparação entre a estratégia Indo-Pacífico dos Estados Unidos e a Iniciativa do Cinturão e Rota da China.
O professor apresentou diferentes características dos dois países, incluindo seus sistemas políticos, valores e modelos econômicos. Também recorreu ao conceito da “Armadilha de Tucídides”, discutido pelo cientista político Graham Allison, para abordar a tensão entre uma potência estabelecida e outra em ascensão.
Independentemente de concordar ou não com todas as interpretações apresentadas, a experiência foi relevante justamente por permitir observar a disputa a partir de uma perspectiva chinesa.
E esse talvez seja um dos principais aprendizados de uma imersão como essa: compreender a China exige mais do que acompanhar seus indicadores econômicos. É preciso observar como o país pensa desenvolvimento, tecnologia, infraestrutura, inovação e estratégia.
Um dos exemplos apresentados foi o programa “East Data West Computing”, lançado pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China em 2022. A iniciativa prevê concentrar parte do processamento de dados produzido em grandes centros do leste do país em regiões do oeste, onde há maior disponibilidade de energia e espaço para infraestrutura de computação.
A lógica apresentada em sala chama atenção não apenas pelo aspecto tecnológico, mas pela forma de pensar a infraestrutura como instrumento de desenvolvimento econômico e distribuição de recursos.
Tecnologia, escala e velocidade
O segundo grande eixo da aula foi a transformação tecnológica.
A apresentação recuperou episódios da corrida espacial durante a Guerra Fria para contextualizar o esforço chinês de desenvolvimento tecnológico. Do lançamento do Sputnik, em 1957, ao pouso de Neil Armstrong na Lua, em 1969, e ao lançamento do primeiro satélite chinês, em 1970, a tecnologia apareceu como elemento estratégico na competição entre países.
Décadas depois, a discussão se desloca para aquilo que o professor apresentou como a Quarta Revolução Industrial: inteligência artificial, internet das coisas, big data, computação em nuvem, fábricas inteligentes e manufatura digital.
A conclusão é difícil de ignorar para quem trabalha com gestão: tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta operacional e passou a fazer parte da própria estratégia das organizações.
É nesse ponto que a experiência chinesa deixa de ser apenas uma discussão sobre geopolítica e passa a interessar diretamente às empresas e aos profissionais brasileiros.
A questão passa a ser: o que pode ser aprendido com a maneira como a China utiliza tecnologia, escala e velocidade para transformar modelos de negócios?
O que a China pode ensinar aos negócios brasileiros?
Essa pergunta está no centro de uma discussão cada vez mais relevante para empresas de diferentes setores, inclusive para a área contábil.
A expansão dos investimentos chineses, a transformação tecnológica, a internacionalização das empresas e a crescente utilização de dados e automação estão mudando o ambiente em que os negócios brasileiros operam.
Para os escritórios contábeis, esse movimento representa desafios, mas também oportunidades. A tecnologia pode automatizar processos e ampliar a capacidade de análise; novos fluxos de comércio e investimento criam demandas relacionadas à internacionalização; e a transformação do perfil dos clientes exige serviços cada vez mais estratégicos e consultivos.
Nesse contexto, olhar para experiências internacionais pode ser uma forma de ampliar o repertório de gestão.
A proposta não é simplesmente copiar o modelo chinês. É entender quais princípios estão por trás de sua capacidade de executar, escalar, inovar e integrar tecnologia aos negócios — e avaliar o que pode ser adaptado à realidade brasileira.
DA EXPERIÊNCIA EM XANGAI À GESTÃO CONTÁBIL
É a partir dessa experiência que a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), em parceria com o Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis e das Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas no Estado de São Paulo (SESCON), trazem para o Brasil uma discussão sobre como os aprendizados observados na China podem contribuir para a transformação dos negócios e, especialmente, da gestão contábil.
Essa é a proposta do curso Gestão Contábil na Prática: Imersão China & Estratégia de Negócios, realizado pela FECAP. A formação foi desenvolvida para sócios, diretores e lideranças de empresas de serviços contábeis interessados em ampliar sua visão estratégica e conhecer modelos de escala, inovação, tecnologia e gestão observados no ambiente empresarial chinês.
Com 32 horas, divididas em oito encontros, o curso será realizado de 28 de outubro a 16 de dezembro, às quartas-feiras, em formato híbrido: com encontros presenciais na FECAP e aulas ao vivo pelo Zoom. Entre os conteúdos estão desenvolvimento econômico da China e seus reflexos no Brasil, China Speed, liderança e gestão de talentos, inovação e automação, estratégia e precificação, negociação internacional e práticas de negócios.
A programação também prevê um workshop de simulação de negócios, no qual os participantes vivenciam situações envolvendo empresas brasileiras, parceiros asiáticos e operadores logísticos e financeiros, além da elaboração de um Roadmap de 90 dias para transformar os aprendizados do curso em ações aplicáveis aos próprios escritórios.
A proposta é justamente fazer a ponte entre o conhecimento sobre a transformação chinesa e os desafios concretos das empresas brasileiras. Mais do que conhecer um modelo de desenvolvimento, o participante poderá analisar como conceitos relacionados à velocidade de execução, tecnologia, inovação, internacionalização e estratégia podem ser adaptados à realidade de sua organização.
Para quem atua na gestão de empresas contábeis, a experiência de uma sala de aula em Xangai pode ser o ponto de partida para uma reflexão ainda maior: como transformar referências internacionais em estratégias capazes de preparar os negócios para um mercado cada vez mais tecnológico, conectado e competitivo?
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