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Proibição das bets pode deslocar parte da demanda para mercado ilegal e reduzir arrecadação, diz professor da FECAP

A proibição das bets no Brasil deverá produzir efeitos que vão muito além do encerramento das operações das plataformas autorizadas.
Imprensa | 28/09/2026

A proibição das bets no Brasil deverá produzir efeitos que vão muito além do encerramento das operações das plataformas autorizadas, segundo o professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Ahmed El Khatib. Na opinião do especialista, o principal desafio econômico a partir de agora será determinar quanto da demanda por apostas desaparecerá e quanto poderá migrar para operadores ilegais ou sediados no exterior.

A medida foi anunciada pelo governo federal na sexta-feira (25), por meio da Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa em todo o território nacional, incluindo apostas esportivas e jogos on-line. Novos depósitos foram proibidos imediatamente, enquanto os sites e aplicativos deverão ser bloqueados a partir de 6 de outubro. Os apostadores têm até 5 de outubro para retirar os valores disponíveis nas plataformas.

Na avaliação de El Khatib, o impacto econômico da decisão dependerá principalmente do comportamento dos consumidores diante do fim do mercado legal. “Agora que a proibição está dada, a principal variável econômica é saber quanto dessa demanda realmente desaparecerá e quanto será deslocado para plataformas clandestinas. Acabar juridicamente com um mercado não significa necessariamente eliminar a demanda que existia por ele”, afirma.

Combate ao mercado ilegal

O professor avalia que o combate às plataformas clandestinas será determinante para os resultados econômicos da medida. Se parte dos apostadores continuar buscando alternativas fora do mercado legal, o Estado poderá perder simultaneamente arrecadação e capacidade de fiscalização.

“A partir de agora, o tamanho do mercado ilegal será uma das principais variáveis para medir o impacto da proibição. Se a demanda permanecer e houver operadores dispostos a atendê-la, podemos ter uma migração para ambientes nos quais não existem os mesmos mecanismos de controle, tributação e proteção ao consumidor”, explica.

Para o docente, a fiscalização será parte fundamental da transição. “Quanto maior for a capacidade de bloquear operadores ilegais, interromper meios de pagamento e impedir a publicidade clandestina, maior será a capacidade de a proibição efetivamente reduzir a oferta. Caso contrário, parte da atividade econômica pode simplesmente migrar para fora do sistema formal.”

Arrecadação também será afetada

Outro efeito direto será a perda das receitas públicas associadas ao mercado regulado. Antes da proibição, as empresas autorizadas estavam submetidas a um conjunto de tributos, taxas e outorgas, além das regras específicas de destinação de recursos.

Para o professor, entretanto, não é possível considerar toda a arrecadação das bets como uma perda líquida para o Estado. “Precisamos separar a arrecadação que desaparece daquela que pode ser recuperada por meio da realocação do consumo. Se uma pessoa deixa de gastar R$ 500 em apostas e passa a gastar esse dinheiro em alimentação, serviços ou lazer, parte da atividade econômica e da tributação simplesmente muda de setor”, afirma.

O efeito fiscal dependerá, portanto, do destino dos recursos que deixarão de circular nas plataformas de apostas.

Dinheiro pode voltar para consumo, poupança ou pagamento de dívidas

A proibição também poderá provocar uma redistribuição dos gastos das famílias. Na avaliação do professor da FECAP, o dinheiro anteriormente destinado às bets poderá seguir diferentes caminhos.

Uma parcela pode retornar ao consumo de bens e serviços; outra pode ser direcionada para poupança ou pagamento de dívidas. Existe ainda a possibilidade de migração para outras modalidades de apostas ou para plataformas clandestinas.

“Não podemos assumir que cada real que deixa de ser apostado será automaticamente consumido em outro lugar. Parte pode voltar para o consumo, parte pode reduzir o endividamento das famílias, parte pode ser poupada e parte pode continuar sendo utilizada em apostas ilegais”, explica.

Essa realocação será especialmente importante para avaliar os efeitos sobre a economia doméstica.

Proibição pode aliviar pressão financeira, mas comportamento será determinante

O professor destaca que os efeitos sobre as famílias não serão uniformes. Para pessoas que comprometiam parcela relevante da renda com apostas, a interrupção do acesso às plataformas pode representar uma redução imediata de despesas e abrir espaço para pagamento de dívidas, consumo ou poupança. O efeito, porém, dependerá do comportamento individual e da possibilidade de acesso a plataformas clandestinas.

“Existe uma diferença muito grande entre uma pessoa que eventualmente aposta R$ 20 e alguém que compromete sistematicamente recursos necessários para despesas básicas ou tenta recuperar perdas acumuladas por meio de novas apostas”, afirma.

Segundo El Khatib, estudos de psicologia econômica ajudam a explicar por que o impacto financeiro das apostas não pode ser analisado apenas pela lógica tradicional de consumo. “Nas apostas existem fenômenos como excesso de confiança, ilusão de controle, aversão à perda e perseguição das perdas. Em determinados casos, a pessoa deixa de pensar ‘quanto posso gastar?’ e passa a pensar ‘quanto preciso apostar para recuperar aquilo que perdi?’”, explica.

Clubes, publicidade e empregos entram na conta

A proibição também deverá afetar setores que se beneficiaram da expansão das bets nos últimos anos, especialmente esporte, mídia e publicidade. Clubes de futebol, campeonatos, veículos de comunicação, influenciadores, agências, empresas de tecnologia, análise de dados, segurança da informação e meios de pagamento formaram uma cadeia econômica em torno das plataformas de apostas.

Com a proibição, contratos de patrocínio e publicidade precisarão ser encerrados ou substituídos. A medida já determina a interrupção de novas contratações de publicidade, patrocínio ou promoção comercial, enquanto materiais que já estavam em circulação podem permanecer até 5 de outubro.

“O impacto não fica restrito às empresas de apostas. Quando um setor que se tornou um grande anunciante desaparece, existe um choque sobre toda a cadeia que dependia daquela demanda”, afirma El Khatib.

O mercado de trabalho também deverá sentir os efeitos, principalmente em áreas como tecnologia, marketing, atendimento, compliance, contabilidade, auditoria, análise de dados, segurança cibernética e publicidade. O impacto líquido sobre o emprego, entretanto, dependerá de quanto da renda antes direcionada às apostas será absorvida por outros setores.

Meios de pagamento terão papel estratégico

Outro setor diretamente envolvido na transição será o financeiro. Bancos, fintechs e instituições de pagamento terão de intensificar o monitoramento das transações relacionadas a operadores ilegais.

O governo anunciou, como parte da estratégia de fiscalização, mecanismos para impedir transferências via Pix e TED para CNPJs relacionados a apostas on-line, além de ações integradas envolvendo Banco Central, Receita Federal, Polícia Federal e outros órgãos.

“Os meios de pagamento passam a ser uma das principais fronteiras de fiscalização. Se a demanda migrar para operadores clandestinos, haverá uma tentativa permanente de criar novos caminhos para movimentar esses recursos”, afirma o professor.

Para ele, isso poderá elevar os custos de compliance e monitoramento das instituições financeiras e aumentar a complexidade do combate às operações clandestinas.

O principal indicador será o que acontecer depois do fechamento

Na avaliação de El Khatib, os efeitos econômicos da proibição não poderão ser medidos apenas pela quantidade de plataformas fechadas ou pelo volume de arrecadação que deixar de existir. Será necessário acompanhar o comportamento dos apostadores, o tamanho do mercado clandestino, a evolução do endividamento das famílias, a realocação do consumo, a arrecadação em outros setores e os impactos sobre emprego, publicidade e esporte.

“Não basta medir quanto o mercado legal perdeu. Precisamos saber para onde esse dinheiro foi, quantas pessoas deixaram efetivamente de apostar, quanto da demanda migrou para o mercado ilegal e qual foi o efeito sobre a situação financeira das famílias”, afirma.

Para o professor, esse acompanhamento será fundamental para avaliar os efeitos econômicos da decisão. “A partir de agora, a pergunta deixou de ser quanto o mercado das bets movimentava e passou a ser o que acontecerá com esse dinheiro, com essa demanda e com esses consumidores depois da proibição. É essa realocação que permitirá entender o impacto econômico efetivo da medida”, conclui.

O especialista: Ahmed Sameer El Khatib é Doutor em Finanças e Doutor em Educação, Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais, graduado em Ciências Contábeis, Pós-doutor em Contabilidade e Pós-doutor em Administração.  É graduando e doutorando em Psicologia Clínica. É professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e professor adjunto de finanças da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

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