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ESG perde força nas empresas: problema de sustentabilidade ou de governança?

A agenda ESG parece estar perdendo espaço nas empresas brasileiras, justamente quando cresce o conhecimento das lideranças sobre o assunto.
Imprensa | 06/10/2026

A agenda ESG (sigla em inglês para Environmental, Social and Governance, que significa Ambiental, Social e Governança) parece estar perdendo espaço nas empresas brasileiras. Pesquisa da Data-Makers com líderes de negócios mostra que 26% dos executivos esperam reduzir os investimentos no tema nos próximos 12 meses, ante 20% no levantamento anterior. Além disso, 21% das empresas cancelaram iniciativas e outros 35% colocaram projetos em espera.

O movimento chama atenção porque acontece justamente quando cresce o conhecimento das lideranças sobre o assunto. A parcela de executivos que afirma possuir conhecimento avançado em ESG passou de 13% para 22%.

Para Leonardo Fabris Lugoboni, professor e pesquisador da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), essa aparente contradição pode revelar um problema menos relacionado à importância da sustentabilidade e mais à forma como ela foi incorporada à gestão das organizações. “Quando uma iniciativa é realmente estratégica, não basta saber quanto dinheiro foi investido nela. É necessário conseguir demonstrar quais resultados foram alcançados, quais riscos foram reduzidos e qual valor foi criado para a organização e para seus stakeholders.”

ESG precisa mostrar resultado

Segundo o especialista, parte da vulnerabilidade das iniciativas ESG pode estar na dificuldade de transformar objetivos de sustentabilidade em indicadores capazes de demonstrar resultados. Investimentos realizados, treinamentos promovidos ou projetos executados mostram o esforço da organização, mas não necessariamente o impacto produzido.

“Orçamento não é indicador de resultado. Se a principal informação disponível é quanto a empresa gastou com determinada iniciativa, será muito mais difícil defender sua continuidade quando surgir uma pressão por redução de custos”, explica Lugoboni.

A pesquisa mostra ainda que Recursos Humanos e Comunicação estão entre as áreas mais afetadas pela retração, com redução ou suspensão de iniciativas relacionadas a contratação, treinamentos, palestras e parcerias com organizações sociais. Para Lugoboni, o dado reforça a necessidade de integrar o ESG aos mecanismos tradicionais de gestão. “Se o ESG faz parte da estratégia, deve ser tratado como qualquer outra prioridade empresarial: com objetivos claros, indicadores, metas, responsáveis, acompanhamento e prestação de contas.”

Mudança da CVM aumenta o desafio

A discussão ganha ainda mais relevância diante de uma mudança recente na regulação brasileira. Em maio de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) alterou a Resolução CVM 193 e retirou a obrigatoriedade que estava prevista para companhias abertas adotarem, a partir de 2026, o relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade segundo os padrões do International Sustainability Standards Board (ISSB).

O regime passou a ser voluntário, seguindo uma lógica de “pratique ou explique”. Os padrões incluem o IFRS S1, voltado às divulgações financeiras relacionadas à sustentabilidade, e o IFRS S2, direcionado às informações relacionadas ao clima, internalizados no Brasil pelos padrões CBPS 01 e CBPS 02.

Para o professor, a flexibilização aumenta a importância da governança. “Quando diminui a pressão regulatória, fica mais evidente quais empresas realmente incorporaram a sustentabilidade à estratégia e quais iniciativas dependiam essencialmente de estímulos externos.”

Isso não significa que todas as iniciativas ESG devam ser mantidas independentemente de seus resultados. Uma gestão madura também exige rever prioridades, corrigir projetos e interromper ações que não entregam valor.

A questão central, portanto, talvez não seja simplesmente se as empresas estão investindo mais ou menos em ESG. “A pergunta mais importante é: a empresa consegue explicar por que está investindo, quais resultados espera alcançar e como sabe se esses resultados foram atingidos?”

Ainda segundo o docente da FECAP, em um ambiente de menor pressão regulatória e maior cobrança por eficiência, a capacidade de responder a essas perguntas pode definir quais iniciativas ESG permanecerão efetivamente integradas à estratégia empresarial.

O especialista: Leonardo Fabris Lugoboni é doutor em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). É professor da graduação e do Mestrado da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e atua como pesquisador e consultor nas áreas de estratégia, indicadores de desempenho e governança corporativa.

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