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Comércio exterior: tarifas aplicadas ao Brasil reforçam necessidade de empresas redirecionarem exportações e buscarem novos mercados

O aumento de tarifas e a criação de novas barreiras comerciais por grandes economias podem gerar impactos relevantes sobre empresas brasileiras.
Imprensa | 05/10/2026

O aumento de tarifas e a criação de novas barreiras comerciais por grandes economias podem gerar impactos relevantes sobre empresas brasileiras que dependem do mercado externo, principalmente no curto prazo, com suspensão de pedidos, renegociação de contratos e compressão de margens. Embora o efeito agregado sobre a balança comercial brasileira possa ser limitado, os impactos tendem a ser concentrados em determinados setores e empresas, segundo Ana Maria Matta Walcher, professora de comércio exterior da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP).

De acordo com a especialista, a primeira consequência de uma nova tarifa é o aumento da incerteza nas relações comerciais. Importadores podem adiar decisões de compra ou renegociar contratos, enquanto exportadores precisam lidar com pressão sobre preços e margens. No médio prazo, os fluxos comerciais podem ser redirecionados para outros destinos, mas empresas que não conseguem reagir rapidamente podem perder participação de mercado.

“No curto prazo, o efeito é de incerteza e reprecificação: pedidos suspensos, renegociação de contratos, compressão de margens e decisões de compra adiadas pelo importador. No médio prazo, vemos o redirecionamento de fluxos. O produto que fica caro em um mercado busca novos destinos e, em alguns casos, perda definitiva de participação se a empresa não reagir rápido”, explica Ana Maria.

A professora destaca que o impacto não ocorre de maneira uniforme entre os produtos brasileiros. Manufaturados com forte dependência de um determinado mercado e menor capacidade de remanejamento, como calçados, máquinas e equipamentos, aço e alumínio, produtos químicos e outros bens industriais, tendem a apresentar maior vulnerabilidade.

Isso acontece porque esses produtos podem enfrentar concorrentes capazes de ocupar rapidamente o espaço deixado pelo exportador brasileiro. Já commodities com demanda global consolidada, como petróleo e minério, além de parte dos produtos do agronegócio, apresentam maior possibilidade de redirecionamento para diferentes mercados.

“Quanto mais o produto tem substituto pronto em outro país, mais poder tem quem impõe a tarifa”, afirma a professora. Para ela, existe um paradoxo: embora a ampliação das exportações de produtos industrializados seja estrategicamente importante para o Brasil, são justamente esses produtos que podem enfrentar maior dificuldade diante de barreiras comerciais.

Quem paga a conta?

Outro efeito das tarifas está na distribuição do custo ao longo da cadeia. Segundo Ana Maria, não existe necessariamente um único agente responsável por absorver o impacto. A divisão depende principalmente do poder de barganha entre as partes, da existência de produtos substitutos e do prazo dos contratos.

Quando o produto brasileiro é difícil de substituir, o importador e o consumidor estrangeiro podem absorver uma parcela maior do custo. Em mercados com fornecedores alternativos, por outro lado, o exportador brasileiro pode ser pressionado a reduzir seus preços para preservar o negócio.

“Na prática, vemos os três pagando um pouco: exportador abre margem, importador dilui na distribuição e o consumidor final paga mais caro. A tarifa é, em essência, um imposto pago no país que a impõe. Mas quem sente primeiro é o exportador”, explica.

As dificuldades, porém, não se restringem às tarifas. Exigências sanitárias e fitossanitárias, normas técnicas, regras de origem, licenças de importação, medidas antidumping e critérios de sustentabilidade e rastreabilidade também podem dificultar o acesso a determinados mercados.

Nesse cenário, a capacidade de comprovar a origem e as condições de produção ganha importância. “Empresa que não documenta sua cadeia produtiva fica vulnerável”, alerta a professora.

Diversificação reduz exposição

Para Ana Maria, a concentração das exportações em poucos destinos representa um dos principais riscos para empresas brasileiras diante de mudanças repentinas nas regras de comércio. A professora calcula que cerca de 5.600 empresas brasileiras foram diretamente afetadas pelas barreiras americanas, o que reforça a necessidade de ampliar a presença em diferentes mercados. “A diversificação de destinos é a estratégia mais eficaz de mitigação”, afirma.

Nesse contexto, a ampliação de acordos comerciais pode abrir novas possibilidades para os exportadores. A professora cita o acordo entre Mercosul e União Europeia como uma oportunidade para empresas brasileiras ampliarem sua presença no mercado europeu, além dos acordos com a EFTA e Singapura.

A diversificação, contudo, não significa apenas encontrar rapidamente um novo comprador. A entrada em novos mercados exige adaptação, certificações, capacidade produtiva, logística e construção de reputação como fornecedor.

Protecionismo também pode abrir oportunidades

A intensificação das disputas comerciais entre grandes economias também pode criar oportunidades para países capazes de ocupar espaços deixados por fornecedores submetidos a tarifas ou outras restrições.

Segundo Ana Maria, o Brasil já conseguiu aproveitar movimentos desse tipo no agronegócio e pode ampliar sua participação internacional em energia, alimentos processados e serviços. “Quando grandes economias se punem mutuamente, surge espaço para fornecedores neutros e competitivos”, afirma.

Para aproveitar essas oportunidades, entretanto, as empresas precisam estar preparadas para atender às exigências dos novos mercados. Capacidade produtiva, certificações, logística e confiabilidade são fatores que podem determinar quem conseguirá ocupar esse espaço.

Informação e planejamento são fundamentais para as PMEs

Para pequenas e médias empresas, que geralmente possuem menos estrutura para responder rapidamente a mudanças no comércio internacional, a preparação antecipada pode reduzir os efeitos de novas barreiras.

Entre as medidas apontadas pela professora estão o conhecimento da classificação tarifária dos produtos, o monitoramento das regras dos mercados de interesse, a utilização de plataformas públicas de comércio exterior, a obtenção de certificações exigidas pelos destinos, a proteção contra riscos cambiais e de crédito e a aproximação com entidades setoriais e a ApexBrasil. A capacitação das equipes também é considerada fundamental. “Comércio exterior se aprende, e empresa com equipe treinada reage em semanas, não em anos”, afirma.

Quando uma tarifa elevada já foi aplicada, a recomendação é revisar a estratégia em diferentes frentes. A primeira possibilidade é renegociar com o cliente condições como prazo, volume, preço e termos de entrega. Em seguida, a empresa pode avaliar sua estrutura logística, o enquadramento tarifário e eventuais possibilidades de isenção.

Outra alternativa é direcionar o produto para mercados nos quais exista uma condição comercial mais favorável. No longo prazo, também podem ser avaliadas parcerias, joint ventures ou até a produção local no país de destino.

De reação a estratégia de internacionalização

Para Ana Maria, o atual ambiente de maior tensão comercial pode produzir uma mudança mais permanente na maneira como empresas brasileiras encaram a internacionalização. Em vez de tratar a exportação como uma oportunidade pontual, a estratégia deveria incorporar diversificação geográfica, maior valor agregado, serviços e planejamento de longo prazo.

“O Brasil tem hoje uma oportunidade rara de transformar uma crise em estratégia: reduzir a dependência de mercados únicos, aproveitar a rede de acordos comerciais recém-ampliada e ampliar a presença global de forma estruturada, inclusive com mais valor agregado e serviços”, afirma.

A professora resume esse movimento como uma espécie de filtro para as empresas que atuam no comércio internacional. “Barreira comercial é um filtro, para o lado de lá, e também para o lado de cá. Ela elimina o exportador amador e premia o profissional”, diz.

Para ela, o cenário atual combina riscos e oportunidades e reforça a importância de profissionalizar a atuação internacional das empresas brasileiras. Informação, certificação, diversificação de mercados e planejamento passam a ser elementos centrais para reduzir a exposição às mudanças nas regras do comércio global.

A especialista: Ana Maria Matta Walcher é especialista em comércio exterior e internacionalização de empresas, com 29 anos de experiência profissional em importação, exportação, logística, desembaraço aduaneiro, marketing internacional e operações cambiais. Desde 2021, atua como extensionista do PEIEX, programa da ApexBrasil, tendo trabalhado nos núcleos FECAP, ACIRP e, atualmente, Faculdade Sebrae. É empreendedora à frente da K.A. Walcher Comex, onde atua com consultoria e capacitação de empresas para o mercado internacional. Possui 16 anos de experiência acadêmica e é autora do livro Tópicos de Logística.

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