voltar ao topo
Image by Magnific

Como identificar os sinais de que uma empresa está entrando em crise financeira?

Uma empresa pode enfrentar uma crise financeira muito antes de o problema aparecer de forma evidente no caixa.
Imprensa | 17/09/2026

Uma empresa pode começar a enfrentar dificuldades financeiras muito antes de o problema aparecer de forma evidente no caixa. Queda nas vendas, aumento da inadimplência, atrasos nos recebimentos, maior dependência de empréstimos bancários e mudanças no comportamento de clientes e fornecedores estão entre os sinais que devem acender o alerta dos gestores.

Para Ivam Ricardo Peleias, professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), o acompanhamento sistemático de indicadores financeiros e operacionais é fundamental para identificar uma deterioração da saúde da empresa e permitir uma reação antes que uma dificuldade pontual se transforme em uma crise estrutural.

Entre os principais sinais de atenção estão a redução das vendas, o avanço da concorrência e a demora da empresa em adotar mudanças que já estão sendo incorporadas pelo mercado, a perda do timing na utilização de canais digitais, além da manutenção de práticas de financiamento com capital oneroso em períodos de juros elevados, entre outros. A Casas Bahia, uma das principais redes brasileiras de varejo, que anunciou recentemente uma recuperação judicial, é um exemplo de empresa que enfrentou dificuldades relacionadas à transformação do mercado e à adaptação aos canais digitais.

“Os empresários devem manter o radar sempre ligado. É preciso acompanhar permanentemente o ambiente interno e externo da empresa, identificando pontos fortes e fracos, ameaças e oportunidades. O produto dessa análise deve alimentar o processo de gestão, planejamento, execução e controle de forma permanente”, afirma Peleias.

Indicadores precisam ser acompanhados de forma sistemática

Segundo o professor da FECAP, a análise mensal das demonstrações contábeis deve fazer parte da rotina de gestão. Entre os instrumentos estão o balanço patrimonial, a demonstração do resultado do exercício (DRE), a demonstração dos fluxos de caixa, a análise dos custos fixos, as margens de contribuição por produtos e canais e o EBITDA.

Também é importante monitorar indicadores de liquidez, endividamento, lucratividade e rentabilidade, além dos prazos médios de pagamento e recebimento, rotação de estoques e evolução das contas a receber e a pagar. Esses dados permitem avaliar, entre outros aspectos, a capacidade de geração de caixa e a forma como as operações estão sendo financiadas.

“Depois de definir quais indicadores serão utilizados, eles podem ser parametrizados nos sistemas da empresa para que sejam calculados e reportados de forma recorrente. O acompanhamento não deve acontecer apenas quando surge um problema”, explica.

Queda nas vendas e falta de caixa podem criar um ciclo de agravamento

A combinação de queda nas vendas, aumento do endividamento e atrasos no pagamento de fornecedores é especialmente preocupante. De acordo com Peleias, esse cenário pode estar relacionado a atrasos sistemáticos no recebimento das vendas, inclusive decorrentes de políticas de concessão de crédito excessivamente flexíveis.

O professor cita como exemplo as Lojas Arapuã, antiga rede brasileira de varejo de eletrodomésticos e eletrônicos que teve forte expansão na década de 1990. Segundo Peleias, a empresa ilustra como uma política de crédito excessivamente flexível pode estimular as vendas, mas também provocar atrasos nos recebimentos e ampliar os problemas de fluxo de caixa.

O problema pode se agravar quando a empresa passa a recorrer de maneira recorrente a recursos bancários mais caros. O aumento da percepção de risco pode elevar os juros e encargos cobrados pelas instituições financeiras, pressionando ainda mais o caixa.

“É preciso agir rápido, pois a função comercial é a principal nas organizações. Uma consequência da queda das vendas é a falta de caixa para pagar fornecedores. Os atrasos nos pagamentos geram encargos que afetam o fluxo de caixa. É um círculo vicioso”, afirma o professor.

Peleias destaca ainda que os sinais de deterioração não aparecem apenas nos balanços. Mudanças no comportamento de clientes, fornecedores e bancos, atrasos em pagamentos e recebimentos, compras excessivas decorrentes de erros de avaliação do mercado e até boatos ou notícias sobre a empresa ou seu segmento podem exigir investigação mais aprofundada.

Nesse ponto, o professor também menciona a Mesbla, tradicional varejista brasileira que entrou em processo de deterioração financeira e posteriormente encerrou suas atividades, como exemplo histórico de uma empresa que, segundo sua análise, cometeu erros sistemáticos de avaliação mercadológica ao realizar compras em excesso.

Crescimento das vendas não garante saúde financeira

Outro ponto de atenção é a possibilidade de uma empresa apresentar aumento nas vendas e, ainda assim, caminhar para uma crise financeira. Isso pode ocorrer quando o crescimento é obtido, por exemplo, por meio de uma política de crédito excessivamente flexível, que aumenta as vendas, mas também a inadimplência.

O professor retoma o caso das Lojas Arapuã, rede varejista que ganhou grande presença no mercado brasileiro nos anos 1990, para ilustrar como o crescimento das vendas pode vir acompanhado de problemas de recebimento. Outra situação de risco ocorre quando a empresa define preços sem conhecer adequadamente seus custos ou aceita margens de contribuição insuficientes para cobrir custos e despesas.

“Mais vendas não significam necessariamente mais caixa. A empresa precisa avaliar como essas vendas são financiadas, qual é a capacidade de recebimento e se os preços praticados geram margem suficiente para sustentar a operação”, explica.

Primeiros sinais exigem preservação do caixa

Quando os problemas começam a aparecer, o diagnóstico precisa considerar se a dificuldade é pontual ou estrutural. Em situações de curto prazo, medidas como antecipação de recebíveis, negociação de prazos maiores com fornecedores e redução de custos fixos desembolsáveis podem ajudar a recompor o caixa.

Já situações estruturais podem exigir mudanças no perfil do endividamento, priorizando prazos mais longos sem necessariamente aumentar o volume total da dívida, além de aportes de capital e outras alternativas de financiamento.

Para preservar o caixa, também podem ser adotadas medidas para antecipar recebimentos, desde que sem conceder descontos que acabem agravando o problema, além de ações específicas para recuperar valores em atraso e eliminar despesas evitáveis.

“O caixa é o coração da empresa. Nos primeiros sinais de dificuldade, é necessário buscar a maior disponibilidade possível de recursos e analisar custos e despesas fixas e variáveis para identificar onde podem ser feitos cortes ou reduções no curto prazo, sem comprometer a operação”, afirma Peleias.

Para o professor, a prevenção depende de uma postura estratégica permanente. Isso envolve acompanhar o próprio segmento de atuação, mudanças no ambiente econômico, medidas governamentais que possam afetar o negócio, movimentos de concorrentes e oportunidades de novos mercados. Internamente, também são importantes a eficiência operacional, o treinamento das equipes, o uso adequado da tecnologia e a realização de rituais de prestação de contas, com fechamento e análise periódica dos resultados econômico-financeiros.

“É preciso agir de forma mais proativa do que reativa, com atenção permanente ao ecossistema e ao entorno da empresa. A gestão profissional, realizada por pessoas competentes, confiáveis e experientes, é parte importante desse processo”, conclui Peleias.

Ivam Ricardo Peleias é professor e pesquisador da FECAP desde 2000. É Doutor em Ciências Contábeis pela FEA-USP e sócio da IRPE – Perícia e Consultoria Contábil, atuando como perito, parecerista, assistente técnico e testemunha técnica em questões patrimoniais no Judiciário, arbitragens e relações privadas. Sua atuação acadêmica e profissional abrange contabilidade, controladoria, controle interno, compliance, gestão de riscos, perícia contábil e educação para contadores e administradores. Ocupa a cadeira nº 56 da Academia Paulista de Contabilidade. Atuou como conselheiro fiscal de empresas listadas na B3. Desenvolveu e implementou modelos e planos de assessoria a conselhos fiscais de cooperativas de trabalho médico (Unimed´s).

Notícias Relacionadas

SIGA A FECAP NAS REDES SOCIAIS

Quer saber mais sobre a POST na FECAP?