voltar ao topo
Image by Magnific

Quanto custa envelhecer? Longevidade pode aumentar ansiedade financeira e pressionar famílias

Envelhecer não significa necessariamente adoecer ou perder a autonomia, mas a chegada de algum grau de dependência pode mudar significativamente a...
Imprensa | 01/09/2026

Envelhecer não significa necessariamente adoecer ou perder a autonomia, mas a chegada de algum grau de dependência pode mudar significativamente a relação das famílias com o dinheiro. Medicamentos, consultas, exames, plano de saúde, alimentação específica, transporte, adaptações na residência, fisioterapia e cuidadores são alguns dos gastos mais evidentes. Existe, porém, uma segunda conta, menos visível: o custo econômico de quem deixa de trabalhar ou reduz sua atividade profissional para cuidar de um familiar.

Para o professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP)Ahmed El Khatib, a discussão sobre o custo da longevidade precisa ir além da pergunta sobre quanto um idoso gasta. “A pergunta economicamente correta não é simplesmente ‘quanto um idoso gasta?’, mas ‘quanto custa cuidar, quem absorve esse custo e quanto essa pessoa deixa de ganhar, produzir e acumular enquanto cuida?’”, explica.

Segundo o financista, o impacto pode se espalhar por diferentes gerações. Uma filha que reduz sua jornada para acompanhar a mãe, por exemplo, pode perder renda, oportunidades profissionais, contribuições previdenciárias e capacidade de acumular patrimônio para a própria velhice. O cuidado também envolve custos que não aparecem diretamente no orçamento, como desgaste emocional, perda de sono, preocupação, conflitos familiares e sobrecarga.

Por que é tão difícil se preparar para a velhice?

Embora o envelhecimento seja um dos eventos mais previsíveis da vida, muitas pessoas têm dificuldade de se preparar financeiramente para ele. El Khatib explica que parte desse comportamento pode ser compreendida pela Psicologia Econômica. O indivíduo tende a atribuir um peso maior às recompensas do presente do que aos benefícios de decisões tomadas pensando em um futuro distante.

Guardar dinheiro hoje para financiar uma eventual necessidade de cuidado daqui a décadas produz um benefício abstrato, enquanto o consumo imediato oferece uma recompensa concreta. A dificuldade aumenta porque pensar sobre a velhice significa também imaginar situações que muitas pessoas preferem evitar, como doença, perda de autonomia, declínio cognitivo e necessidade de ajuda. Com isso, pode surgir um comportamento de adiamento: “depois penso nisso” ou “quando estiver mais velho resolvo”.

Para o professor da FECAP, esse fenômeno também mostra os limites da educação financeira. Conhecer juros compostos, investimentos ou planejamento não significa necessariamente transformar conhecimento em comportamento. Entre saber o que fazer e efetivamente fazê-lo existem emoções, vieses, autocontrole, contexto social, renda e percepção de futuro.

Ansiedade financeira alimenta a falta de planejamento

Outro aspecto apontado pelo especialista é a ansiedade financeira. A preocupação com o dinheiro pode ser positiva quando leva a pessoa a revisar o orçamento, aumentar a poupança ou reorganizar suas finanças. O problema aparece quando o medo passa a estimular a evasão. A pessoa pode evitar abrir o aplicativo do banco, consultar a fatura, calcular dívidas, projetar a aposentadoria ou conversar com os filhos sobre o futuro. Cria-se, então, um ciclo em que a ansiedade leva à evitação, a evitação reduz a informação e a sensação de controle e, consequentemente, aumenta a própria ansiedade.

Esse fenômeno ganha uma dimensão particular no envelhecimento porque a percepção de que uma perda financeira pode ser recuperada diminui. Uma perda patrimonial aos 30 anos pode ser vista como algo que ainda haverá décadas para compensar. Aos 75, a mesma perda pode ser associada à impossibilidade de recuperar os recursos necessários para manter a autonomia. “Na velhice, perder dinheiro pode ser percebido como perder autonomia futura”, afirma o docente.

Significado do dinheiro muda ao longo da vida

Para uma pessoa mais jovem, determinado patrimônio pode representar a compra de um imóvel, um investimento ou a abertura de um negócio. Para uma pessoa idosa, o mesmo valor pode ser mentalmente convertido em meses de cuidador, medicamentos, moradia ou possibilidade de permanecer vivendo em sua própria casa. Nesse sentido, o patrimônio passa a funcionar como uma espécie de reserva de autonomia.

O professor Ahmed destaca, porém, um paradoxo: as pessoas passam décadas sendo incentivadas a acumular patrimônio, mas pouco se fala sobre como utilizá-lo durante a velhice. Depois de anos ouvindo que é preciso “poupar, poupar, poupar”, observar o saldo diminuir pode provocar medo e culpa, mesmo quando os recursos são suficientes para financiar uma vida planejada.

Essa incerteza pode levar a comportamentos opostos. Algumas pessoas passam a poupar excessivamente e evitam viagens, lazer e experiências que poderiam pagar. Outras adotam a lógica de que “não sabem quanto tempo têm” e aumentam o consumo no presente.

Para Ahmed, os dois comportamentos podem ter uma origem semelhante: a dificuldade de lidar com a incerteza sobre a longevidade. “A pessoa não está mais tentando acumular dinheiro suficiente; está tentando acumular certeza suficiente. E certeza absoluta não está à venda”, afirma.

Impacto do envelhecimento dos pais para os filhos

O impacto financeiro da longevidade não se restringe ao indivíduo que envelhece. Ele pode atingir toda a família, especialmente quando uma geração precisa cuidar simultaneamente dos pais e dos filhos enquanto tenta construir a própria aposentadoria.

Uma pessoa de 50 anos pode estar financiando os estudos dos filhos, pagando a própria casa, ajudando os pais idosos e, ao mesmo tempo, tentando formar sua reserva para o futuro. Nesse cenário, o dinheiro destinado ao cuidado dos pais pode deixar de ser investido na própria aposentadoria ou utilizado em outras necessidades familiares.

Existe, ainda, um componente emocional. Decidir quanto gastar com o cuidado de um pai ou de uma mãe envolve amor, obrigação, reciprocidade, culpa e medo. “Se economizo no cuidado, posso sentir que estou abandonando minha mãe. Se comprometo excessivamente minha aposentadoria, aumento a probabilidade de depender dos meus próprios filhos no futuro”, explica o professor.

O problema também pode ser distribuído de maneira desigual entre irmãos. Enquanto um pode contribuir financeiramente, outro pode oferecer tempo e disponibilidade. Para o especialista, isso cria uma espécie de “contabilidade emocional”, na qual dinheiro e cuidado não são perfeitamente equivalentes.

Mulheres podem carregar uma parcela maior do custo invisível

A economia do cuidado também se relaciona diretamente com trabalho, gênero e desigualdade. Segundo o professor da FECAP, as mulheres continuam absorvendo uma parcela desproporcional do trabalho não remunerado de cuidado.

Quando uma mulher deixa o mercado de trabalho para cuidar de um familiar, o custo não corresponde apenas ao salário que deixa de receber. Há também perda de progressão profissional, capital humano, contribuição previdenciária, capacidade de poupança e patrimônio acumulado. “Uma decisão de cuidado tomada aos 48 pode reaparecer como vulnerabilidade financeira aos 70”, destaca.

Para docente, reconhecer o valor econômico do cuidado não significa diminuir sua dimensão afetiva. “Cuidado pode ser amor, trabalho, responsabilidade, renúncia e sofrimento ao mesmo tempo.”

Educação financeira não resolve sozinha o problema

Diante desse cenário, Ahmed avalia que preparar as famílias para a longevidade exige mais do que educação financeira. Ensinar orçamento e investimentos pode ajudar, mas não elimina problemas como baixa renda, alto custo do cuidado, ausência de serviços ou dependência funcional. “Educação financeira é necessária, mas precisamos parar de tratá-la como uma vacina universal contra todos os problemas econômicos”, afirma.

Para o especialista, a preparação para uma vida mais longa precisa combinar educação financeira, planejamento, Psicologia Econômica, prevenção em saúde, infraestrutura de cuidado, mercado de trabalho e proteção social.

O desafio, portanto, não é apenas acumular recursos suficientes para a aposentadoria. É pensar antecipadamente em como o patrimônio poderá financiar diferentes necessidades ao longo da vida e preservar a capacidade de fazer escolhas. “Uma reserva financeira não compra juventude nem elimina a incerteza, mas pode comprar escolhas”, resume.

Nesse sentido, o professor propõe uma mudança na pergunta tradicional sobre planejamento financeiro. Em vez de pensar apenas em “quanto dinheiro preciso para me aposentar?”, seria necessário perguntar: “quanto de autonomia quero conseguir financiar enquanto envelheço?”

A mudança desloca o foco do patrimônio para a qualidade de vida. Afinal, o desafio da longevidade não é apenas fazer o dinheiro durar até o fim da vida, mas encontrar um equilíbrio entre o bem-estar de hoje e a autonomia de amanhã. “Talvez nossa maior ansiedade financeira na velhice não seja o medo de ficar sem dinheiro. Seja o medo de ficar sem escolha”, finaliza.

O especialista: Ahmed Sameer El Khatib é Doutor em Finanças e Doutor em Educação, Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais, graduado em Ciências Contábeis, Pós-doutor em Contabilidade e Pós-doutor em Administração.  É graduando e doutorando em Psicologia Clínica. É professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e professor adjunto de finanças da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Notícias Relacionadas

SIGA A FECAP NAS REDES SOCIAIS

Quer saber mais sobre a POST na FECAP?