
A eleição presidencial terminará em outubro, mas os desafios econômicos permanecerão. A partir de 2027, o Brasil deverá lidar com uma combinação de fatores que não depende exclusivamente de quem ocupará o Palácio do Planalto: a necessidade de recuperar os investimentos produtivos, o custo elevado do crédito, a trajetória das contas públicas, o comportamento do câmbio e um ambiente internacional marcado por tensões comerciais e geopolíticas.
Para Andrés Vivas Frontana, professor de Economia da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), o principal desafio do próximo mandato será criar condições para uma trajetória de crescimento sustentado, especialmente por meio da recuperação dos investimentos e da capacidade produtiva do país.
“A retomada do crescimento sustentado depende da recuperação da capacidade de investimento e da coordenação do investimento, de forma a encaminhar um processo de reindustrialização do país”, afirma.
A questão é especialmente relevante porque o investimento determina a capacidade futura de produção da economia. A formação bruta de capital fixo, que inclui máquinas, equipamentos, construções e novas tecnologias, precisa avançar para que o país consiga elevar produtividade e ampliar sua capacidade de crescimento.
O pós-eleição começa com o desafio dos juros
Entre as variáveis que deverão definir o ambiente econômico de 2027 está a taxa Selic. Para Frontana, a discussão sobre juros precisa considerar seus efeitos sobre o investimento, o crédito e o próprio resultado das contas públicas.
Juros elevados encarecem o financiamento para empresas e consumidores e podem reduzir a atratividade de projetos de expansão produtiva. Ao mesmo tempo, aumentam o custo financeiro associado à dívida pública. “O comportamento dos juros tem efeitos sobre o investimento, o crédito e também sobre o resultado fiscal, por meio do custo de carregamento da dívida pública”, explica.
Por isso, a trajetória da Selic no pós-eleição deverá ser observada em conjunto com inflação, atividade econômica, concessão de crédito e investimentos. Uma eventual redução dos juros poderá melhorar as condições financeiras para empresas e consumidores, mas o efeito sobre a atividade dependerá também das expectativas de demanda e do ambiente de negócios.
Contas públicas seguem no radar
O cenário fiscal será outro componente importante da conjuntura econômica de 2027. Na avaliação do professor, porém, a análise não deve se limitar ao tamanho da dívida pública em relação ao PIB.
É necessário observar também o resultado primário, a despesa com juros e a composição dos gastos públicos. Frontana destaca que as despesas com juros chegaram a R$ 1,15 trilhão, equivalente a 8,67% do PIB nos 12 meses anteriores ao período analisado.
Para o professor, o custo dos juros é um elemento central para compreender a evolução do resultado nominal das contas públicas e o espaço disponível para políticas de investimento. Assim, o debate fiscal e monetário no pós-eleição deveria se concentrar na recuperação da capacidade do Estado de coordenar e estimular investimentos, sobretudo em infraestrutura básica e social, bem como na redução dos encargos financeiros sobre a dívida pública.
Dólar e inflação: uma relação que pode ganhar importância
O comportamento do dólar será outro termômetro da economia no pós-eleição. Alterações nos fluxos internacionais de capital podem provocar movimentos importantes no câmbio, com reflexos sobre os preços domésticos.
Uma desvalorização do real, por exemplo, pode encarecer produtos e insumos importados e aumentar os custos de setores que dependem de componentes produzidos no exterior. O efeito pode chegar à inflação e, consequentemente, ao poder de compra das famílias. “Câmbio pressionado se transfere para a economia doméstica com aumento da inflação”, afirma Frontana.
Nesse contexto, Selic, câmbio e inflação deverão ser acompanhados como variáveis interligadas, especialmente diante das mudanças nas condições financeiras internacionais.
O maior risco pode estar fora do Brasil
Embora o cenário doméstico seja determinante para o desempenho da economia, o professor considera que os fatores externos poderão representar uma das principais fontes de risco em 2027.
Tarifas comerciais, sanções econômicas e conflitos internacionais podem afetar o preço e a disponibilidade de produtos estratégicos, como petróleo, alimentos, fertilizantes e componentes tecnológicos.
Para Frontana, eventuais interrupções nas cadeias globais de produção podem gerar novos choques de oferta e pressionar a inflação justamente em um momento em que os bancos centrais precisam equilibrar controle de preços e estímulo à atividade. “A questão geopolítica parece-me fundamental para entender os possíveis desdobramentos da economia brasileira em 2027”, afirma.
O cenário internacional também pode afetar o Brasil por meio do comércio exterior e dos mercados financeiros. Uma desaceleração das principais economias poderia reduzir a demanda por produtos brasileiros, enquanto uma maior aversão global ao risco poderia provocar saída de capitais de mercados emergentes e aumentar a volatilidade cambial.
Investimento será o termômetro do crescimento
Diante desse cenário, a evolução dos investimentos deverá ser um dos principais indicadores para avaliar a trajetória da economia brasileira no pós-eleição.
Para Frontana, uma recuperação consistente da formação bruta de capital fixo seria um sinal de que o país está ampliando sua capacidade produtiva. Já a permanência de investimentos baixos pode limitar o crescimento potencial da economia. “O investimento depende de juros baixos, expectativas positivas de demanda, infraestrutura adequada e alguma coordenação do Estado”, afirma.
Além da taxa de investimento, o professor recomenda acompanhar produção industrial, Selic, inflação, câmbio, crédito, dívida pública, resultado fiscal e preços internacionais de energia e alimentos.
O desempenho desses indicadores ajudará a identificar se o Brasil caminhará para um cenário de maior crescimento e recuperação da capacidade produtiva ou para um período de maior pressão sobre inflação, crédito e atividade econômica.
Um cenário econômico que começa depois das urnas
Na avaliação de Frontana, portanto, o resultado eleitoral será apenas o ponto de partida para uma nova etapa da conjuntura econômica brasileira. Independentemente da orientação política do próximo governo, questões estruturais continuarão presentes: como elevar o investimento, aumentar a produtividade, administrar o custo da dívida e enfrentar um ambiente internacional mais instável.
O cenário mais favorável seria aquele em que a economia conseguisse combinar redução das restrições ao investimento, recuperação da atividade produtiva e estabilidade macroeconômica. No cenário de maior risco, choques externos, inflação, volatilidade cambial e condições financeiras internacionais adversas poderiam limitar o crescimento. “Todos os indicadores externos econômicos, financeiros, geopolíticos e militares devem ser acompanhados com máxima atenção pelos analistas de conjuntura”, conclui o professor.
O especialista: Andrés Vivas Frontana possui graduação em Economia, mestrado em Economia e doutorado em Economia pela Universidade de São Paulo (2000). É professor de Economia da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado FECAP desde 2001.





