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Bets: especialista diz que não existe “aposta responsável”, e responsabilidade sobre efeitos negativos dos jogos deve ser compartilhada

A expressão "aposta responsável em bet" ocupa espaço em campanhas publicitárias e nas discussões sobre regulamentação
Imprensa | 06/08/2026

A expressão “aposta responsável” passou a ocupar espaço de destaque nas campanhas publicitárias das plataformas de apostas esportivas – as chamadas “bets” – e nas discussões sobre a regulamentação do setor no Brasil. A mensagem sugere que, com autocontrole e limites pessoais, seria possível manter uma relação segura com as bets. Mas, na avaliação do professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Ahmed El Khatib, essa ideia precisa ser analisada com cautela.

Segundo ele, embora o conceito possa contribuir para reduzir danos quando acompanhado de mecanismos efetivos de proteção, muitas vezes ele acaba transferindo ao consumidor uma responsabilidade que não é apenas individual.

“O conceito de aposta responsável pode ter utilidade quando está inserido em uma política séria de prevenção. O problema é quando ele se resume a uma mensagem publicitária enquanto todo o restante da plataforma é desenhado para incentivar que o usuário aposte mais, por mais tempo e com maior frequência”, afirma.

Para o especialista, existe uma contradição estrutural no modelo de negócios das casas de apostas. Enquanto a proteção do consumidor pressupõe limites, pausas e redução de comportamentos de risco, a receita das plataformas aumenta justamente quando o usuário permanece mais tempo conectado e realiza um número maior de apostas.

O problema vai além do autocontrole

Na avaliação de El Khatib, reduzir o debate à recomendação para que as pessoas “joguem com responsabilidade” pode ocultar fatores que exercem forte influência sobre o comportamento dos consumidores. Publicidade intensa, notificações constantes, bônus promocionais, micro apostas, apostas durante eventos esportivos e a facilidade de acesso pelo celular criam um ambiente altamente estimulante, que favorece decisões impulsivas.

“O comportamento do apostador não ocorre em um ambiente neutro. Ele é influenciado por estímulos tecnológicos, estratégias comerciais e fatores emocionais que aumentam o tempo de permanência na plataforma”, explica.

Por isso, o docente da FECAP defende que os danos associados às apostas sejam tratados de forma semelhante a outros problemas de saúde coletiva, considerando não apenas as escolhas individuais, mas também as características do mercado e dos produtos oferecidos.

Existe um limite realmente seguro?

Uma das dúvidas mais comuns entre consumidores é se existe um valor ou um tempo considerado seguro para apostar. Para Ahmed, a resposta é não. “Não existe um limite universal que transforme automaticamente a aposta em uma atividade saudável. O mesmo valor pode ser irrelevante para uma pessoa e comprometer completamente o orçamento de outra.”

Segundo o professor, mais importante do que estabelecer um número é observar a origem do dinheiro utilizado. Recursos destinados ao pagamento de contas, alimentação, aluguel, saúde, educação ou formação de reserva financeira jamais deveriam ser usados em apostas. Da mesma forma, recorrer a empréstimos, cheque especial ou cartão de crédito para apostar representa um importante sinal de risco.

O docente ressalta ainda que qualquer quantia destinada às apostas deve ser encarada como um gasto de entretenimento que pode ser totalmente perdido, e nunca como investimento ou alternativa para complementar a renda.

Quando a diversão se transforma em risco?

O desenvolvimento de um comportamento problemático costuma acontecer de forma gradual. Antes mesmo do endividamento aparecer, pequenas mudanças na rotina podem indicar perda de controle.

Entre os principais sinais estão a necessidade crescente de apostar valores maiores, a tentativa de recuperar rapidamente o dinheiro perdido, a dificuldade de interromper as apostas, a preocupação constante com resultados esportivos, alterações de humor, ocultação de perdas e o uso das apostas como forma de aliviar ansiedade, tristeza ou frustração. “Um erro frequente é esperar que apareçam grandes dívidas para reconhecer o problema. Muitas vezes, a perda de controle psicológico acontece antes do colapso financeiro.”

Segundo Ahmed, um dos mecanismos mais perigosos é a chamada “perseguição das perdas”, quando o apostador aumenta sucessivamente os valores apostados para tentar recuperar prejuízos anteriores. “Nesse momento, a decisão deixa de ser racional. A pessoa passa a apostar movida pela urgência emocional de voltar ao ponto em que estava.”

Nem todos estão expostos ao mesmo risco

Embora qualquer pessoa possa desenvolver problemas relacionados às apostas, alguns grupos apresentam vulnerabilidade maior. Entre eles estão adolescentes e adultos jovens, pessoas endividadas, indivíduos com ansiedade, depressão ou outras formas de sofrimento emocional, além daqueles que já possuem histórico de dependência química ou outros comportamentos compulsivos.

Também aumentam o risco fatores como exposição constante à publicidade das bets, influência de amigos e influenciadores digitais, além de funcionalidades presentes nas próprias plataformas, como apostas ao vivo e micro apostas.

As ferramentas atuais são suficientes?

Hoje, diversas plataformas oferecem recursos como limites de depósito, alertas de tempo de uso e mecanismos de autoexclusão. Para o professor, essas ferramentas representam avanços importantes, mas possuem eficácia limitada quando dependem exclusivamente da iniciativa do próprio usuário. “Quem já perdeu o controle nem sempre consegue utilizar esses mecanismos no momento em que mais precisa.”

Segundo ele, uma política efetiva de proteção exige que as próprias empresas sejam capazes de identificar padrões objetivos de risco e interromper ações comerciais dirigidas a consumidores vulneráveis. “As plataformas não deveriam apenas disponibilizar ferramentas. Elas deveriam reconhecer comportamentos de risco, suspender incentivos comerciais, limitar determinadas funcionalidades e realizar intervenções proporcionais à gravidade da situação.”

Publicidade influencia a percepção do risco

Outro ponto destacado pelo professor é o papel da publicidade na normalização das apostas esportivas. Patrocínios de clubes, campanhas com atletas, transmissões esportivas e ações de influenciadores digitais acabam associando as apostas a entretenimento, sucesso e pertencimento. “A publicidade mostra as comemorações e as vitórias. As perdas, as dívidas e os impactos emocionais permanecem invisíveis.”

Na avaliação do especialista, advertências rápidas sobre jogo responsável dificilmente conseguem neutralizar campanhas publicitárias que estimulam continuamente o consumo. Por isso, as mensagens de risco deveriam ter destaque proporcional ao investimento em marketing.

Um mercado mais seguro exige responsabilidade compartilhada

Para o professor da FECAP, tornar o mercado de apostas mais seguro depende de uma combinação entre educação financeira, saúde mental, fiscalização e regulação. “O debate sobre apostas não pode ser reduzido à oposição entre liberdade individual e proibição. A responsabilidade precisa ser compartilhada entre consumidores, empresas e Estado.”

Entre as medidas que considera importantes estão a criação de limites financeiros vinculados ao CPF, restrições a modalidades de apostas mais impulsivas, maior controle sobre a publicidade, auditoria dos algoritmos utilizados pelas plataformas e mecanismos automáticos para identificar usuários em situação de risco.

Segundo ele, cabe aos usuários reconhecer sinais de perda de controle; às plataformas, reduzir práticas que estimulem comportamentos nocivos; ao poder público, fiscalizar e aperfeiçoar a regulação; e à sociedade abandonar a ideia de que problemas relacionados às apostas decorrem apenas de falta de disciplina.

“Apostar com responsabilidade não depende apenas da vontade do jogador. Também exige um ambiente que favoreça decisões conscientes e mecanismos capazes de proteger pessoas em situação de maior vulnerabilidade”, conclui.

O especialista: Ahmed Sameer El Khatib é Doutor em Finanças e Doutor em Educação, Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais, graduado em Ciências Contábeis, Pós-doutor em Contabilidade e Pós-doutor em Administração.  É graduando e doutorando em Psicologia Clínica. É professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e professor adjunto de finanças da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

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