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Por que o trabalho ocupa tanto espaço na nossa identidade?

O trabalho não é apenas uma escolha individual: reflete uma cultura que atribui ao trabalho um papel central na construção da identidade.
Imprensa | 14/10/2026

O trabalho é uma das primeiras coisas em que pensamos quando alguém pergunta sobre nós. A profissão, o cargo e o reconhecimento profissional ajudam a situar as pessoas socialmente e, muitas vezes, passam a fazer parte da maneira como elas próprias se enxergam. Essa relação, porém, não é apenas uma escolha individual: ela também reflete uma cultura que atribui ao trabalho um papel central na construção da identidade.

Segundo Augusto Galery, professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), a identidade é uma construção social, desenvolvida a partir da identificação e do pertencimento a determinados grupos. Ao se apresentar como psicólogo, por exemplo, um indivíduo também comunica que faz parte de um grupo profissional. Historicamente, esse pertencimento já esteve mais associado a características como nacionalidade e religião, mas, com o desenvolvimento da sociedade capitalista, o trabalho ganhou protagonismo nesse processo.

“Com uma cultura completamente voltada ao trabalho, ele vira uma fonte de orgulho pessoal e estar fora dele vira motivo de vergonha”, explica o professor. Para Galery, a maneira como as pessoas reconhecem a si mesmas está diretamente relacionada aos valores que a sociedade estabelece e que acabam sendo incorporados como próprios.

Quando o reconhecimento profissional influencia o valor pessoal

Salário, cargo, prestígio e status podem contribuir para a autoestima, mas a importância atribuída a esses fatores vem passando por transformações. De acordo com Galery, o reconhecimento profissional teve um peso especialmente significativo para as gerações dos baby boomers e X, enquanto as gerações mais novas têm demonstrado maior valorização de aspectos como qualidade de vida, tempo para a família, lazer e propósito no trabalho.

Essa mudança aparece na disposição de algumas pessoas de abandonar posições de prestígio em busca de uma rotina que permita dedicar mais tempo a outros interesses. Isso não significa, contudo, que o reconhecimento tenha deixado de importar, mas que ele passou a disputar espaço com outras dimensões da vida.

A relação entre identidade e trabalho fica ainda mais evidente quando alguém perde o emprego, se aposenta ou deixa uma posição que ajudava a definir quem era socialmente. Segundo o professor, estudos sobre aposentadoria apontam consequências importantes da perda da identidade social, que podem incluir sofrimento psíquico e agravamento de quadros clínicos.

A perda envolve duas dimensões: a sensação de abandono social e o sofrimento emocional. Esse receio pode levar as pessoas a permanecer em situações profissionais insatisfatórias, evitando mudanças que as obriguem a reconstruir a própria identidade e a enfrentar a incerteza sobre como serão reconhecidas socialmente.

Produtividade e comparação permanente

A pressão para produzir mais, acumular resultados e demonstrar evolução constante também pode intensificar a identificação com o trabalho. Galery recorre ao conceito de “quantofrenia”, associado ao sociólogo russo Pitirim Sorokin, para explicar como a lógica da quantificação invade diferentes dimensões da vida. Horas trabalhadas, resultados alcançados e até interações nas redes sociais passam a funcionar como indicadores de valor e pertencimento.

Nesse contexto, a comparação com os outros e a necessidade de superar resultados anteriores alimentam uma busca exagerada por desempenho. O professor identifica duas características centrais desse modelo: a competitividade e a exigência de evolução permanente. A primeira cria o paradoxo de fazer com que o indivíduo busque pertencimento por meio da competição; a segunda se aproxima da ideia de “sociedade do cansaço”, desenvolvida pelo filósofo Byung-Chul Han.

Quando o trabalho passa a ocupar um espaço desproporcional em relação aos demais interesses, a situação pode se aproximar do chamado workaholismo. Galery compara os diferentes propósitos de vida a cordas que puxam uma pessoa em direções distintas. Se a dimensão profissional se torna muito mais forte do que as demais, o desequilíbrio pode comprometer relações familiares, afastar a pessoa da vida social e reduzir seu interesse por atividades culturais, além de favorecer o surgimento de transtornos psicológicos.

Ter propósito no trabalho não é fazer do trabalho o único propósito

Para o professor da FECAP, encontrar propósito na atividade profissional é diferente de transformar o trabalho no propósito central da existência. Uma vida equilibrada pode reunir diferentes motivadores, como carreira, família, hobbies, participação política e solidariedade.

Galery alerta, porém, para dois riscos relacionados ao propósito profissional. O primeiro ocorre quando empresas se apropriam do sentido que os funcionários atribuem ao trabalho para extrair mais dedicação sem oferecer as devidas compensações. O segundo aparece quando valores socialmente difundidos são aceitos como objetivos de vida sem reflexão crítica, fazendo com que, por exemplo, ganhar dinheiro seja colocado acima de princípios éticos relacionados às outras pessoas, à sociedade e à natureza.

As novas gerações têm contribuído para levar ao ambiente profissional demandas por relações menos tóxicas, mais igualdade para minorias e maior ética empresarial. Ainda assim, o professor pondera que é cedo para afirmar que essa mudança representa a maioria dos trabalhadores. Além disso, boa parte das pesquisas sobre o tema é realizada em países do Norte global, cujas condições sociais são diferentes das brasileiras.

“No Brasil, a desigualdade faz com que uma parcela expressiva da população dependa diretamente do trabalho, muitas vezes precarizado ou organizado por plataformas digitais, para garantir a própria subsistência e a da família. Nesse cenário, a possibilidade de buscar equilíbrio entre vida pessoal e profissional também está condicionada às condições materiais de cada indivíduo”, acrescenta.

Como construir uma identidade para além da carreira

Para Galery, desenvolver uma relação mais saudável com o trabalho exige reflexão crítica sobre os valores que orientam as escolhas pessoais. Em vez de simplesmente reproduzir as expectativas sociais, é necessário questionar se esses valores são éticos e se produzem consequências negativas para o próprio indivíduo, para outras pessoas ou para o meio ambiente.

O caminho passa pelo reconhecimento de que a identidade não precisa estar limitada ao cargo ocupado, à empresa em que se trabalha ou aos resultados alcançados. Aceitar a multiplicidade de propósitos e reconhecer a importância da solidariedade são passos para construir uma relação menos dependente do desempenho profissional.

A carreira pode continuar sendo uma fonte de realização, reconhecimento e pertencimento, sem se tornar a única medida do valor de uma pessoa. “O desafio está em preservar o lugar do trabalho na vida sem permitir que ele elimine as demais dimensões que também contribuem para a construção da identidade”, finaliza.

O especialista: Augusto Galery é professor de Psicologia Social, Saúde Mental e Trabalho e Diversidade e Inclusão na FECAP e na FIA. Doutor e pós-doutor em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo (USP), é mestre pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e pesquisador na área de Psicologia Social. Também atua como gerente de Gestão Educacional do Instituto Rodrigo Mendes.

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