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Endividamento público exige atenção à trajetória da dívida e ao peso dos juros, avalia professor

A discussão sobre o endividamento público brasileiro não deve se limitar ao tamanho da dívida ou ao resultado de um único ano
Imprensa | 27/08/2026

A discussão sobre as contas públicas brasileiras não deve se limitar ao tamanho da dívida ou ao resultado de um único ano. Para o professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP)Ahmed El Khatib, é necessário observar principalmente a trajetória do endividamento, o custo dos juros e a capacidade de crescimento da economia.

“Eu classificaria a situação brasileira como administrável no presente, mas desconfortável na trajetória. O Brasil não está diante de uma crise clássica de financiamento do Estado, mas apresenta uma combinação de déficit, juros elevados e dívida crescente que limita progressivamente o espaço de atuação da política econômica”, afirma.

Os números ajudam a dimensionar o cenário. Em junho de 2026, o déficit primário acumulado em 12 meses do setor público consolidado alcançava R$ 157,2 bilhões, ou 1,19% do PIB. Com a incorporação dos aproximadamente R$ 1,16 trilhão de juros nominais, o déficit nominal chegava a cerca de R$ 1,32 trilhão, equivalente a 9,99% do PIB. A dívida bruta estava em aproximadamente 81,9% do PIB, ou R$ 10,8 trilhões.

Segundo Ahmed, o peso dos juros é um dos principais pontos de atenção. “A conta dos juros é gigantesca. Mesmo que haja melhora no orçamento corrente, uma parcela substancial dos recursos continua sendo absorvida pelo custo de carregar o estoque de dívida”, explica.

Dívida não tem um limite universal

Para o professor, não existe um percentual de dívida em relação ao PIB que determine, isoladamente, quando um país passa a enfrentar uma crise fiscal. A sustentabilidade depende de fatores como custo de financiamento, crescimento econômico, resultado primário, prazo e composição dos títulos, moeda da dívida e credibilidade das instituições. “Não importa apenas quanto um país deve. Importa em que moeda deve, para quem deve, quanto paga, qual é o prazo da dívida e qual é sua capacidade futura de geração de renda”, afirma.

A relação entre juros e crescimento é especialmente importante. Quando o custo real da dívida permanece acima do crescimento real da economia, o governo precisa produzir resultados primários mais robustos apenas para estabilizar a relação dívida/PIB. Esse processo pode criar um ciclo de deterioração: dívida crescente, maior percepção de risco, juros mais altos, aumento da despesa financeira e nova pressão sobre a dívida.

O impacto chega ao crédito e aos investimentos

O problema fiscal também pode afetar diretamente empresas e consumidores. Segundo Ahmed, maior percepção de risco tende a elevar os juros de longo prazo e o custo de capital das empresas, dificultando investimentos produtivos. A cadeia, explica o professor, passa por risco fiscal, prêmio de risco, juros longos, custo de capital, investimento, produtividade e crescimento.

“O aspecto fiscal deixa de ser um assunto abstrato quando começa a aparecer no financiamento imobiliário, no crédito empresarial, na prestação do automóvel, no investimento produtivo, no câmbio e no emprego”, afirma.

Desafio está também nas despesas obrigatórias

Outro obstáculo para o ajuste fiscal brasileiro é o peso das despesas obrigatórias R$ 1,136 trilhão em benefícios previdenciários e R$ 454 bilhões em pessoal e encargos sociais em 2026. Para Ahmed, isso ajuda a explicar por que investimentos e despesas discricionárias acabam frequentemente sendo comprimidos durante processos de ajuste.

“O verdadeiro ajuste fiscal deveria procurar cortar gordura antes de cortar músculo e preservar aquilo que aumenta a capacidade produtiva da economia”, afirma.

O professor defende maior uso de avaliação de políticas públicas, revisão de subsídios e benefícios tributários, combate a desperdícios e orçamento baseado em evidências, em vez de simplesmente reduzir gastos de forma linear.

Debate ganha importância durante as eleições

Em períodos eleitorais, a discussão fiscal ganha ainda mais relevância porque decisões tomadas hoje podem produzir efeitos durante décadas. Para Ahmed, propostas que envolvam novos gastos, benefícios ou redução de impostos precisam apresentar também sua fonte de financiamento e impacto futuro.

Segundo o professor, medidas permanentes deveriam contar com fontes permanentes de financiamento. “Quando benefícios permanentes são financiados com receitas extraordinárias, cria-se uma espécie de armadilha: a receita desaparece, mas a obrigação permanece.”

Brasil e Estados Unidos: por que o mesmo nível de dívida não representa o mesmo risco

A comparação com os Estados Unidos mostra por que o tamanho da dívida, isoladamente, não determina a situação fiscal de um país. No Brasil, a dívida bruta estava em 81,9% do PIB em junho de 2026, enquanto os Estados Unidos apresentam uma relação dívida/PIB significativamente maior. Ainda assim, as condições de financiamento dos dois países são diferentes.

Isso ocorre principalmente porque os EUA emitem o dólar, principal moeda de reserva internacional, e possuem um mercado de títulos público profundo e líquido, com elevada demanda por seus papéis. Assim, uma mesma relação entre dívida e PIB pode representar riscos diferentes. Países com moeda forte, mercado financeiro desenvolvido e elevada demanda por seus títulos podem sustentar níveis maiores de endividamento.

Isso não significa que os EUA estejam imunes ao problema. Quanto maior a dívida e mais altos os juros, maior o custo de financiamento e menor o espaço para outras despesas públicas. “Não existe um limite universal de dívida. Existe uma combinação de capacidade econômica, credibilidade institucional e condições de financiamento”, afirma o especialista.

Prioridade deve ser estabilizar a trajetória da dívida

Para o professor, o próximo governo deveria buscar uma trajetória crível de estabilização e posterior redução da dívida em relação ao PIB, combinando revisão de despesas obrigatórias, melhoria da qualidade do gasto, preservação de investimentos produtivos e fortalecimento das instituições fiscais.

O crescimento econômico também faz parte da solução. Uma economia mais produtiva aumenta emprego, renda, lucros e arrecadação, contribuindo para melhorar as contas públicas. “Podemos melhorar o indicador controlando a dívida, mas também podemos ajudar a estabilizá-lo fazendo o PIB crescer de maneira sustentável. Mas crescimento não pode ser utilizado como uma espécie de solução mágica”, pondera.

Para Ahmed, a questão central não é se o Estado deve ou não se endividar, mas para que os recursos são utilizados e qual capacidade futura está sendo criada para sustentar essa dívida. “O Brasil corre o risco de tornar progressivamente mais caro o seu próprio futuro. Quanto maior a parcela do orçamento destinada ao serviço de decisões passadas, menor o espaço disponível para as escolhas futuras”, afirma.

O especialista resume o cenário: o déficit é a fotografia. A dívida é o filme. “Os juros são o preço que pagamos para continuar exibindo esse filme. E a credibilidade determina quanto custará o próximo capítulo”, finaliza.

O especialista: Ahmed Sameer El Khatib é Doutor em Finanças e Doutor em Educação, Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais, graduado em Ciências Contábeis, Pós-doutor em Contabilidade e Pós-doutor em Administração.  É graduando e doutorando em Psicologia Clínica. É professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e professor adjunto de finanças da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

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