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Roubo de cargas se desloca para periferias e rodovias e mantém padrão concentrado em dias úteis, no Estado de São Paulo

Levantamento do Boletim Tracker Fecap mostra queda nas ocorrências, mas revela redistribuição geográfica e operação alinhada à rotina...
Imprensa | 01/06/2026

Levantamento do Boletim Tracker Fecap mostra queda nas ocorrências, mas revela redistribuição geográfica e operação alinhada à rotina logística

O Estado de São Paulo registrou redução de 30,2% no número de roubos de cargas, no 1º trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado. O resultado confirma a tendência de queda já observada anteriormente. Em 2025, foram registradas 4.142 ocorrências, uma redução de 25% em relação a 2024, quando houve 5.523 casos. Os dados estão no Boletim Tracker Fecap, que acaba de ser tabulado, analisando os números desde janeiro de 2024 até hoje.

O estudo indica que o crime tem se deslocado dos grandes centros para cidades do entorno, corredores logísticos e bairros periféricos, mantendo um padrão operacional nos dias e horários comerciais. A capital paulista segue concentrando o maior volume de casos, mas registrou uma queda expressiva de 24%, com 601 ocorrências a menos.

Ao mesmo tempo, municípios estratégicos para o transporte rodoviário passaram a ganhar relevância. Cidades como Itapecerica da Serra (+47,2%), Cotia (+24,4%) e Juquitiba (+30,2%) apresentaram crescimento significativo. “Todas estão conectadas a importantes rodovias (como a Rodovia Régis Bittencourt e a Raposo Tavares) e rotas de escoamento (cidades como Juquitiba, 69 casos, e Miracatu, 58 casos, subiram no ranking), o que reforça a migração do crime para áreas com forte circulação de cargas”, afirma o gerente de Comando e Monitoramento do Grupo Tracker, Vitor Corrêa. Outro destaque é Guarulhos, que ampliou as ocorrências em 8,9% e segue como um dos principais pontos de atenção pela concentração de centros logísticos.

A boa notícia são as quedas expressivas em cidades que historicamente figuravam entre os principais focos, como Campinas (-70,3%), Praia Grande (-59,8%) e Itapevi (-60%).

Comparação entre as cidades com mais ocorrências – 2024 vs 2025

Cidades comuns (presentes nas duas listas das 20 mais)

Cidade20242025Variação %
Itapecerica da Serra72106+47,2%
Juquitiba5369+30,2%
Cotia7897+24,4%
Santos4249+16,7%
Embu das Artes8494+11,9%
Guarulhos270294+8,9%
Carapicuíba6765-3,0%
Miracatu6258-6,5%
Diadema4538-15,6%
Osasco173141-18,5%
São Paulo25061905-24,0%
Jundiaí6331-50,8%
Barueri7244-38,9%
Santo André11370-38,1%
São Bernardo do Campo15185-43,7%
Itapevi8032-60,0%
Praia Grande12751-59,8%
Campinas12838-70,3%

Observação: As cidades de Cubatão (41 ocorrências em 2025) e Limeira (31) entraram no top 20 de 2025, substituindo Cajamar (47 em 2024) e São Vicente (41 em 2024), dois municípios que tiveram redução natural nos registros de ocorrência.

Capital perde concentração e crime se dispersa entre bairros

Dentro da cidade de São Paulo, os bairros com maior número de ocorrências registraram queda mais intensa que a média da cidade, indicando perda de concentração nos principais focos. Regiões que lideravam em 2024, como Grajaú (-57,4%) e Vila Maria (-30,3%), recuaram de forma significativa. Em contrapartida, bairros como Capão Redondo (+35%), Jardim Ângela (+17,2%) e Jaraguá (+7,5%) passaram a ganhar relevância. “Áreas como Parelheiros, Sapopemba e Vila Guilherme passaram a figurar entre as mais afetadas, enquanto bairros tradicionais deixaram a lista”, destaca o pesquisador da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) responsável pelo estudo, Erivaldo Vieira.

Ranking e variação dos bairros comuns (presentes nos dois anos)

Bairro20242025Variação %
Capão Redondo4054+35,0%
Vila Maria7653-30,3%
Grajaú10846-57,4%
Anhanguera4243+2,4%
Jaraguá4043+7,5%
Iguatemi37370,0%
Sacomã5134-33,3%
Jardim Ângela2934+17,2%
Parque Novo Mundo2627+3,8%
Cidade Tiradentes3626-27,8%
São Mateus2725-7,4%
JD São Luís2620-23,1%

Segundo o pesquisador da FECAP, no 1º trimestre de 2026, o padrão se tornou ainda mais disperso. Nenhum bairro ultrapassou participação relevante isolada e os casos se distribuíram por diferentes regiões da cidade, incluindo áreas centrais, como o Centro Histórico, e zonas periféricas. “Esse comportamento indica fragmentação das ocorrências, o que aumenta a complexidade do monitoramento e reduz a previsibilidade espacial”, complementa Erivaldo Vieira.

Dias úteis concentram mais de 80% dos casos

Os dados mostram forte concentração das ocorrências entre terça-feira e sexta-feira. Em 2025, esses dias responderam por cerca de 79% dos casos. No início de 2026, a concentração aumentou para aproximadamente 82%, com destaque para quarta e quinta-feira, que lideram o volume de registros. Os finais de semana apresentam baixa incidência, especialmente aos domingos, com participação residual próxima de 2%. Isso reforça a relação direta entre o crime e a atividade econômica, com atuação nos períodos de maior circulação de mercadorias.

O crime está mais estratégico e sofisticado

O Boletim Tracker Fecap analisou, pela primeira vez, as circunstâncias legais dos crimes e constatou a consolidação do crime organizado. A utilização de duas ou mais pessoas nos crimes esteve presente em 57,9% das ocorrências em 2025, contra 53,1% no ano anterior, indicando maior atuação de quadrilhas estruturadas e com capacidade de adaptação.

Outro sinal de alerta é o aumento da restrição da liberdade das vítimas. Os casos de cárcere privado cresceram 6,7%, enquanto a violência após a subtração caiu 30,4%. “Os criminosos passam a manter o motorista sob controle por mais tempo para evitar reações e dificultar o acionamento de sistemas de segurança. O que torna ainda mais necessária a contratação de serviços como imobilizadores, que permitem a atuação direta do motorista durante um roubo ou qualquer sinal de perigo, com bloqueio progressivo e acionamento por diferentes gatilhos de risco dentro da cabine”, explica Vitor Corrêa. O estudo mostrou que o uso de arma de fogo também permanece relevante.

Por outro lado, os roubos a veículos de transporte de valores apresentaram queda de 38,5%, a maior entre as categorias analisadas. O resultado aponta para a eficácia de investimentos em escolta, rastreamento e integração entre empresas e forças de segurança, modelo que pode ser replicado em outras operações de alto risco.

Tabela resumo das principais qualificadoras (2024 vs. 2025)

Qualificadora / Causa de aumento20242025Variação absVariação %
Concurso de duas ou mais pessoas (quadrilha)2.9382.410-528-18,0%
Não especificado (NULL)1.8381.285-553-30,1%
§4º – Roubo qualificado (pena 2 a 8 anos)129139+10+7,8%
Uso de arma de fogo (§2ºA, I)9779-18-18,6%
Mantém a vítima em poder (sequestro) – §2º, V7580+5+6,7%
Violência após subtração (assegurar impunidade) – §1º6948-21-30,4%
Transporte de valores – §2º, III3924-15-38,5%
Receptação (§1º)3027-3-10,0%
Repouso noturno (causa de aumento)2726-1-3,7%
Fraude eletrônica (§4º-B)98-1-11,1%
Estelionato com uso de redes/telefone (§2º-A)48+4+100%
Arma de fogo de uso restrito (§2ºB)64-2-33,3%

Setor precisa reforçar inteligência e protocolos de prevenção

Os dados indicam que o enfrentamento ao roubo de cargas exige ajustes contínuos por parte de todos os agentes envolvidos.

Na análise de Erivaldo Vieira, “para as forças de segurança, o foco tende a se deslocar para a desarticulação de quadrilhas e lideranças, com uso intensivo de inteligência. Para transportadoras e seguradoras, ganham relevância medidas como revisão de protocolos em casos de retenção de motoristas e o fortalecimento da validação digital de operações logísticas. Já na esfera pública, a manutenção da redução das ocorrências depende da continuidade das ações de repressão, com atenção especial aos crimes qualificados”, conclui.

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