Cessar-fogo entre EUA e Irã reduz tensão imediata, mas cenário segue instável e sujeito a novos confrontos; avalia especialista
Trégua entre EUA e Irã está longe de representar uma solução definitiva para um conflito de décadas, segundo professora da FECAP.
Imprensa | 25/06/2026
O cessar-fogo anunciado recentemente entre Estados Unidos e Irã trouxe um alívio momentâneo para uma das crises geopolíticas mais relevantes da atualidade. No entanto, na opinião da professora de Relações Internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Isabela Agostinelli, a trégua está longe de representar uma solução definitiva para um conflito marcado por décadas de rivalidade, disputas estratégicas e interesses regionais que permanecem sem resolução.
Segundo a docente, o cenário mais provável para os próximos meses é de uma estabilidade temporária e muito delicada, com risco constante de novos episódios de violência. “O que existe hoje é uma negociação ainda em andamento para um possível cessar-fogo e não necessariamente um acordo de paz. As questões centrais do conflito, como o programa nuclear iraniano, a capacidade militar do país e os desdobramentos das ações de Israel no Líbano e na Palestina, continuam sem solução”, afirma.
Uma rivalidade construída ao longo de décadas
A origem das tensões entre Estados Unidos e Irã remonta à segunda metade do século XX. Até a Revolução Iraniana de 1979, os dois países mantinham uma relação estratégica próxima. O rompimento ocorreu com a ascensão do regime liderado pelo aiatolá Khomeini, que passou a adotar uma postura abertamente contrária aos interesses americanos e israelenses na região.
Para a docente da FECAP, um dos elementos estruturais dessa rivalidade é a política de sanções econômicas aplicada pelos Estados Unidos ao Irã desde o fim da década de 1970.
“Independentemente de mudanças de governo em Washington, as sanções permaneceram como uma política de Estado. Houve momentos de distensão, como o acordo nuclear de 2015, mas a retirada unilateral dos Estados Unidos do pacto durante o primeiro governo Trump, em 2018, aprofundou novamente as tensões”, explica.
Guerra aberta e instabilidade regional
Embora a rivalidade seja histórica, a escalada mais recente está inserida em um contexto regional mais amplo. De acordo com Agostinelli, os acontecimentos desencadeados após a guerra em Gaza ampliaram as tensões em diferentes frentes do Oriente Médio, envolvendo atores presentes no Líbano, Síria, Iraque e Iêmen.
A especialista destaca que a chamada Guerra dos 12 Dias, em 2025, representou um marco importante nesse processo. O conflito intensificou a instabilidade interna do Irã, agravando problemas econômicos e sociais que já vinham sendo potencializados pelas sanções internacionais. “O ponto mais crítico ocorreu quando os confrontos evoluíram para uma fase aberta de guerra, ampliando o risco de envolvimento direto de outros países da região”, observa.
Israel permanece como peça central da crise
Na avaliação da professora da FECAP, compreender a relação entre Estados Unidos e Irã exige analisar também o papel desempenhado por Israel. Segundo ela, a aliança estratégica entre Washington e Tel Aviv faz com que as agendas de segurança dos dois países estejam profundamente conectadas.
Ao mesmo tempo, Israel considera o Irã a principal ameaça à sua segurança regional, sobretudo devido ao apoio iraniano a grupos armados que atuam em diferentes frentes do Oriente Médio. “Cada vez mais, as tensões entre Estados Unidos e Irã não podem ser compreendidas sem considerar o papel de Israel e os impactos das disputas regionais envolvendo Palestina, Líbano e Síria”, afirma.
Para Agostinelli, Israel é atualmente o ator com maior potencial para provocar novas rupturas no cessar-fogo, especialmente porque não demonstra alinhamento automático a eventuais entendimentos firmados diretamente entre Washington e Teerã.
Risco de guerra mundial é reduzido
Apesar da gravidade da situação, a especialista considera pouco provável que a crise evolua para uma guerra de escala global. Segundo ela, uma ampliação desse porte dependeria do envolvimento militar direto de potências como Rússia e China, algo que atualmente não interessa a nenhum dos dois países.
“A Rússia segue concentrada na guerra da Ucrânia, enquanto a China prioriza a estabilidade regional para preservar suas relações econômicas e seus projetos de infraestrutura ligados à Nova Rota da Seda”, explica.
Nesse contexto, o cenário mais provável continua sendo o de conflitos regionais, confrontos indiretos e episódios recorrentes de instabilidade, sem que haja uma escalada para um enfrentamento mundial.
Impactos econômicos continuam no radar
Além das consequências geopolíticas, a crise também produz reflexos relevantes para a economia global. O principal ponto de atenção permanece sendo o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de petróleo.
Sempre que há risco de interrupção do fluxo na região, os mercados reagem com preocupação diante da possibilidade de escassez de oferta energética. “O aumento da tensão costuma pressionar os preços do petróleo, elevando custos de transporte, produção e alimentos em diversos países”, afirma Agostinelli.
No Brasil, os efeitos podem ser percebidos principalmente nos combustíveis e na inflação. Como os preços domésticos acompanham as oscilações do mercado internacional, choques externos tendem a impactar diretamente gasolina, diesel, fretes e custos logísticos.
Futuro incerto
Embora a atuação de países do Golfo, como Arábia Saudita, Catar e Omã, tenha contribuído para conter a escalada recente, a professora da FECAP avalia que a estabilidade regional continua frágil.
“O cenário mais provável é o de uma aparente estabilidade, sem garantias concretas de longo prazo. O risco de novos confrontos permanece elevado, especialmente diante da possibilidade de novos ataques envolvendo Israel, que tem expandido seus ataques no Líbano e mantido os ataques em Gaza, apesar do cessar-fogo assinado em outubro de 2025”, conclui.
A especialista: Isabela Agostinelli é professora de Relações Internacionais na Fecap, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU) e do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da PUC-SP. Pesquisa temas relacionados à política externa dos Estados Unidos para o Oriente Médio, com foco em Palestina e Golfo.