O Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), lança estudo inédito que aponta que mede o grau de exposição e vulnerabilidade financeira, psicológica e comportamental de jovens do Estado de São Paulo diante das apostas esportivas digitais, conhecidas como “bets”. O estudo revela que 46,3% dos jovens apostaram no 1º trimestre de 2026 e 8,9% contraíram dívidas ligadas a apostas esportivas digitais.
O “Apostômetro FECAP 2026” foi realizado entre janeiro e março de 2026, com entrevistas a 1.200 jovens paulistas, e mostra que o hábito de apostar se tornou recorrente e, em parte significativa dos casos, associado a prejuízos financeiros e impactos emocionais.
Entre os principais resultados do estudo, estão:
- 46,3% apostaram no 1º trimestre de 2026;
- 29,8% apostaram no último mês;
- 17,6% apostam semanalmente;
- 12,1% usaram dinheiro de despesas essenciais;
- 19,7% tentaram recuperar perdas imediatamente;
- 24,2% relataram ansiedade, culpa ou irritação após perdas;
- 8,9% contraíram dívidas ligadas às apostas;
- 10,6% reportaram prejuízo acadêmico ou profissional.
Segundo o coordenador da pesquisa, o professor Ahmed El Khatib, o levantamento aponta sinais claros de perda de controle: 19,7% disseram tentar recuperar perdas imediatamente, prática conhecida como chasing losses, um dos principais indicadores de comportamento compulsivo no universo das apostas.
“O grande problema das bets não é apenas o risco financeiro, mas a forma como elas são desenhadas para estimular repetição e permanência. A aposta deixa de ser entretenimento e passa a operar como um mecanismo emocional de recompensa e fuga”, analisa o professor El Khatib.
O estudo também evidencia que as apostas já competem diretamente com despesas básicas na vida de parte dos jovens. Segundo os dados, 12,1% afirmaram ter utilizado dinheiro destinado a contas essenciais e 15,4% relataram ter perdido mais do que planejavam.
O dado mais alarmante envolve o endividamento: 8,9% contraíram dívidas relacionadas às apostas, mostrando que o hábito pode evoluir rapidamente para desequilíbrios financeiros persistentes.
“Quando o jovem começa a apostar com recursos que deveriam garantir necessidades básicas, estamos diante de um padrão de vulnerabilidade. Não se trata de falta de disciplina, mas de um fenômeno econômico, psicológico e tecnológico integrado”, afirma Ahmed.
Ansiedade, culpa e prejuízo acadêmico
O Apostômetro também avaliou os efeitos emocionais e sociais do comportamento. Os resultados indicam que 24,2% dos jovens relataram ansiedade, culpa ou irritação após perdas, enquanto 21,8% mencionaram sentimentos negativos recorrentes.
Além disso, 10,6% disseram ter sofrido prejuízo acadêmico ou profissional devido às apostas, evidenciando impactos que extrapolam o campo financeiro e interferem diretamente no desempenho cotidiano.
“Há uma dinâmica muito perigosa: o jovem acredita que conhecimento esportivo garante lucro, acha que a próxima aposta vai compensar perdas anteriores e minimiza pequenas perdas repetidas. Isso cria um ciclo psicológico que se retroalimenta”, explica o professor.
Quem está mais vulnerável
De acordo com o estudo, o grupo com maior risco é composto por jovens de 18 a 24 anos, com renda instável, alta exposição digital e pressão financeira recente, combinação que amplia a suscetibilidade a comportamentos impulsivos e ao apelo de promessas de ganho rápido.
Recomendações e alerta
O Apostômetro FECAP destaca a necessidade de ações educativas e regulatórias para mitigar o avanço do problema. Entre as recomendações estão campanhas de educação financeira e probabilística em instituições de ensino, apoio psicológico breve e medidas de publicidade responsável, com maior transparência sobre perdas médias e mecanismos de proteção ao público jovem.
“Aposta digital não vende apenas chance de lucro. Ela vende emoção, esperança imediata e sensação de controle. Quando isso encontra instabilidade econômica e impulsividade, o risco cresce rápido”, conclui Ahmed.
Metodologia do estudo
O Apostômetro FECAP foi desenvolvido para permitir comparações futuras entre regiões, faixas etárias e perfis socioeconômicos, com o objetivo de se consolidar como um indicador periódico de referência no monitoramento dos riscos financeiros, psicológicos e comportamentais associados às apostas esportivas digitais entre jovens.
Com base em cinco dimensões analisadas (frequência de apostas, comprometimento financeiro, comportamento compulsivo, impacto emocional e impacto social/desempenho), o índice consolidado de 2026 registrou 64,2 pontos em uma escala de 0 a 100, classificando o ambiente analisado como de risco elevado.
“O Apostômetro não pretende apenas reunir percentuais isolados. Ele traduz um fenômeno complexo em uma métrica integrada, capaz de orientar instituições de ensino e formuladores de políticas públicas. Monitorar o avanço das bets é acompanhar um risco que afeta não só o orçamento, mas também a saúde emocional e a produtividade da nova geração”, conclui o professor.
O pesquisador: Ahmed Sameer El Khatib é Doutor em Finanças e Doutor em Educação, Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais, graduado em Ciências Contábeis, Pós-doutor em Contabilidade e Pós-doutor em Administração. É graduando e doutorando em Psicologia Clínica. É professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e professor adjunto de finanças da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).