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Governança climática avança no Brasil, mas ainda é desigual entre setores, aponta professor da FECAP

Governança climática avança no Brasil, mas ainda é desigual entre setores, aponta professor da FECAP
Imprensa | 08/04/2026
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A governança climática vem deixando de ser um tema restrito à agenda ambiental e ganhando espaço como fator decisivo para planejamento estratégico, gestão de riscos e acesso a capital. Segundo o professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Fabio Coimbra, a governança climática no ambiente corporativo deve ser entendida como a incorporação efetiva da variável climática nas decisões do dia a dia das organizações — e não apenas como um discurso reputacional.

“Governança climática é a integração metodológica da variável climática nas deliberações estratégicas, na modelagem de capital, na gestão de riscos e na prestação de contas”, afirma Coimbra.

De acordo com o especialista, o Brasil apresenta um cenário de maturidade desigual. Enquanto o sistema financeiro nacional e o mercado de capitais têm avançado com maior rapidez, impulsionados por exigências regulatórias e pressão do custo de capital, parte significativa do setor produtivo ainda trata o tema como secundário.

“Há assimetria: o setor financeiro e o mercado de capitais exibem maior maturidade, enquanto parte relevante do setor produtivo permanece em fase embrionária, tratando clima como acessório”, explica.

Estratégia ou apenas ESG?

Para o professor da FECAP, a diferença entre uma governança climática real e uma abordagem superficial está na forma como o tema influencia decisões estratégicas e financeiras. Quando os riscos climáticos entram na matriz de apetite ao risco e afetam investimentos e precificação de passivos, há um tratamento efetivo. Por outro lado, quando o assunto aparece apenas em relatórios institucionais sem impacto real nas decisões do conselho, o risco é de “ESG de vitrine”.

“Superficialidade é relato produzido por comunicação, desconectado de riscos materiais e de decisões do conselho. A convergência regulatória reduz espaço para abordagens apenas reputacionais”, afirma Coimbra.

Pressão regulatória e novos padrões de transparência

A tendência, segundo o especialista, é de fortalecimento das exigências de transparência climática no Brasil. A partir dos exercícios iniciados em 2026, companhias abertas — e, em paralelo, determinados participantes regulados do sistema financeiro — passam a enfrentar exigências mais rigorosas de divulgação de informações relacionadas à sustentabilidade e ao clima, alinhadas aos padrões internacionais do ISSB. Entre elas estão a IFRS S1, voltada à divulgação geral de riscos e impactos financeiros ligados à sustentabilidade, e a IFRS S2, focada especificamente em mudanças climáticas. A adoção desses padrões deve aumentar a confiabilidade dos dados publicados e reduzir espaço para discursos genéricos sem comprovação.

“As normas obrigatórias a partir de 2026 alinham o Brasil ao ISSB e trazem rigor contábil ao relato financeiro da sustentabilidade. A crescente asseguração independente elevará a qualidade e limitará narrativas não auditáveis”, destaca.

No setor financeiro, o professor ressalta que já existe obrigação de divulgação e gestão de riscos climáticos, incluindo avaliações por cenários, conforme normas do Banco Central.

Impactos diretos no custo de capital e nos investimentos

O especialista afirma que a governança climática já influencia decisões econômicas concretas. Empresas expostas a riscos físicos — como ativos em regiões vulneráveis a enchentes, secas e eventos extremos — precisam investir em resiliência. Já setores mais intensivos em carbono enfrentam pressões crescentes ligadas à transição energética e ao risco regulatório, o que afeta seguros, financiamento e planejamento de longo prazo. “O tema já impacta custo de capital, seguros e priorização de investimentos”, afirma.

Fragmentação é gargalo para políticas públicas

Apesar do avanço regulatório, Coimbra aponta que o Brasil ainda enfrenta um entrave importante: a falta de coordenação e padronização entre governo federal, estados, municípios e setor privado. Segundo ele, muitas diretrizes acabam não se traduzindo em projetos concretos por ausência de dados, critérios uniformes e mecanismos claros de financiamento. “O gargalo é a fragmentação: diretrizes macro sem tradução uniforme em dados, licenciamento e mecanismos de financiamento”, diz.

Empresas que não se adaptarem devem perder competitividade

O professor alerta que organizações que ignorarem a governança climática tendem a enfrentar dificuldades crescentes para acessar crédito e investimentos. O custo de capital pode subir e a liquidez pode se tornar mais restrita, à medida que investidores e financiadores passem a exigir padrões mínimos de gestão e transparência. “O desalinhamento expõe a restrições de liquidez e custo de capital mais alto. No médio prazo, a pauta climática será item mandatório nas deliberações ordinárias de conselho”, avalia.

Para Coimbra, a governança climática deve ser tratada como parte da responsabilidade dos administradores e como elemento essencial de proteção a acionistas e à sociedade. “O reporte climático é matéria de accountability dos administradores. Negligenciar a materialidade climática é falha de diligência corporativa”, conclui.

O especialista: Fabio Coimbra é professor da FECAP, doutor pela FEA USP. Atua como conselheiro de administração e membro de comitês de empresas de diversos setores. Trabalhou por 21 anos no Banco Central do Brasil, ocupando posições técnicas e de liderança, com experiência internacional, incluindo passagem no BIS (Bank for International Settlements), o “banco central dos bancos centrais”, além de ter sido sócio da PwC, na prática de consultoria. É especialista em governança corporativa, gestão de riscos, compliance e temas regulatórios, em diferentes setores e contextos institucionais.

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