O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) já havia realizado pagamentos de cerca de R$ 38,9 bilhões até março de 2026, o equivalente a aproximadamente 96% do total previsto no caso do conglomerado Master. Esses números reforçam a importância do papel do FGC na manutenção da confiança no sistema financeiro, mas também ampliam o debate sobre seu futuro operacional, sua capacidade de recomposição de liquidez e o desenho de incentivos do sistema de garantia de depósitos.
Segundo Fabio Coimbra, professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e especialista em regulação e supervisão do sistema financeiro, esse evento pode marcar um ponto de inflexão no desenho institucional das garantias de depósitos e na forma como o mercado financeiro brasileiro lida com risco e liquidez.
“O impacto de longo prazo se manifesta em duas frentes. Primeiro, há um impacto de liquidez: desembolsos dessa magnitude consomem recursos e exigem recomposição diligente do funding do Fundo ou ajustes na reserva de liquidez. Em segundo, o desdobramento institucional: o mercado tende a escrutinar o desenho de incentivos do seguro a depositantes, com ênfase na sensibilidade das contribuições ao risco e à concentração”, afirma o professor da FECAP.
Coimbra também destaca que o episódio envolvendo o conglomerado Master não representa, em si, um risco sistêmico estrutural ao Sistema Financeiro Nacional (SFN). O Banco Central do Brasil classificou o grupo como de porte pequeno (categoria S3), com cerca de 0,57% do ativo total e 0,55% das captações do SFN, afastando a hipótese de um choque de solvência que pudesse comprometer o funcionamento geral do mercado financeiro.
No entanto, a consequência mais relevante não é necessariamente de natureza prudencial, mas informacional. Movimentos de mercado impulsionados por contágio de confiança — em que investidores reprecificam riscos, buscam segurança em emissores maiores e encurtam prazos de aplicação — podem afetar especialmente bancos de menor porte e fintechs, gerando elevação no custo de captação e restrições à oferta de crédito.
“Sob a ótica prudencial, a liquidação não representa risco sistêmico, mas a materialidade do evento reside no contágio informacional e de funding: investidores reprecificam o prêmio, encurtam prazos e migram recursos para emissores percebidos como de menor risco”, diz o especialista.
O caso também reacende o debate sobre aperfeiçoamentos regulatórios e estruturais. O professor defende que os desdobramentos do episódio reforçam a necessidade de evoluir a arquitetura de supervisão, possivelmente em direção a um modelo inspirado no Twin Peaks, com papéis mais claros e coordenados entre supervisão prudencial e de conduta. Na avaliação de Coimbra, isso pode reduzir fragmentações, melhorar a coordenação entre agentes regulatórios e aperfeiçoar o tratamento dos incentivos no sistema financeiro.
Em termos de prevenção, o docente da FECAP aponta que algumas mudanças podem reduzir o risco de casos semelhantes no futuro. Entre elas estão cobranças maiores de instituições mais arriscadas, monitoramento mais rigoroso de bancos com captação muito concentrada e regras mais claras para evitar que o “selo FGC” seja usado como argumento de marketing, como se fosse garantia de que a instituição é segura.
No plano macroeconômico, embora o episódio não seja capaz, por si só, de alterar de modo relevante a política monetária, há espaço para impactos marginais, sobretudo sobre spreads e oferta de crédito em segmentos mais vulneráveis. A comunicação clara das autoridades — especialmente entre o Banco Central, o FGC e o mercado — é crucial para minimizar efeitos de confiança adversos.
O desfecho esperado é de estabilização após a conclusão dos pagamentos pelo FGC, com uma reprecificação natural do risco fora do perímetro adequado. “A variável essencial a ser administrada é o risco de contágio informacional, por meio de comunicação clara e coordenação entre BCB, FGC e mercado.”
Em um cenário mais adverso, um avanço mais intenso nas medidas de supervisão e prudência poderia se tornar necessário. “Já em uma perspectiva estruturante, o caso pode funcionar como catalisador para ajustes na arquitetura regulatória do sistema financeiro brasileiro”, finaliza Coimbra.
O especialista: Fabio Coimbra é professor da FECAP, doutor pela FEA USP. Atua como conselheiro de administração e membro de comitês de empresas de diversos setores. Trabalhou por 21 anos no Banco Central do Brasil, ocupando posições técnicas e de liderança, com experiência internacional, incluindo passagem no BIS (Bank for International Settlements), o “banco central dos bancos centrais”, além de ter sido sócio da PwC, na prática de consultoria. É especialista em governança corporativa, gestão de riscos, compliance e temas regulatórios, em diferentes setores e contextos institucionais.