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Conflito envolvendo o Irã reacende tensões globais e expõe disputas históricas no Oriente Médio

A recente escalada de tensões envolvendo o Irã voltou a mobilizar a atenção da comunidade internacional e reacendeu debates sobre estabilidade...
Imprensa | 21/01/2026
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A recente escalada de tensões envolvendo o Irã voltou a mobilizar a atenção da comunidade internacional e reacendeu debates sobre estabilidade regional, segurança global e o papel das grandes potências no Oriente Médio. Para compreender o que está em jogo, é fundamental olhar para as raízes históricas, políticas e estratégicas do conflito, que se estendem por décadas.

Segundo a professora de Relações Internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Isabela Agostinelli, o ponto de inflexão da política iraniana ocorreu com a Revolução Islâmica de 1979, que derrubou a ditadura do xá Reza Pahlavi, instalada após um golpe apoiado por Estados Unidos e Grã-Bretanha em 1953. “A partir da revolução, o Irã deixa de ser o principal aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio e passa a ser tratado como uma grande ameaça por Washington, por Israel e por monarquias árabes do Golfo”, explica a especialista.

Desde então, o país adotou uma política externa marcada pela oposição aos Estados Unidos e a Israel, com o objetivo de conter o que considera avanços imperialistas na região. Em resposta, os EUA instituíram a Doutrina Carter, em 1980, que define o Golfo Pérsico como área de interesse vital, legitimando inclusive ações militares para proteger seus interesses, sobretudo ligados ao petróleo. Essa lógica de contenção se traduziu em décadas de sanções econômicas impostas ao Irã.

De acordo com Agostinelli, os efeitos acumulados dessas sanções ajudam a explicar a escalada recente. “As manifestações que eclodiram entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 foram inicialmente motivadas pela deterioração econômica, com inflação elevada, colapso da moeda iraniana e aumento expressivo do custo de vida”, afirma. Embora os protestos tenham surgido com demandas legítimas por reformas, o cenário rapidamente se transformou em um campo de disputa entre interesses hegemônicos dos Estados Unidos e a resistência iraniana.

No plano regional, o conflito não pode ser analisado de forma isolada. A professora ressalta que os acontecimentos no Irã estão diretamente conectados à guerra em Gaza, iniciada em outubro de 2023. “A guerra se expandiu regionalmente por iniciativa de Israel, que busca enfraquecer o Irã ao atacar seus aliados não estatais, como Hezbollah, Houthis e Hamas”, pontua.

Entre os principais atores do conflito estão Irã, Estados Unidos e Israel. Os EUA buscam manter sua hegemonia no Oriente Médio, enquanto Israel enxerga o Irã como o principal obstáculo ao seu projeto de ordem regional. Já as monarquias do Golfo oscilam entre rivalidade e cautela, temendo os impactos de uma guerra aberta, especialmente sobre o mercado de petróleo e sua própria segurança.

A RELIGIÃO E O CONFLITO

Para a professora, a dimensão religiosa costuma ser superestimada no debate público e frequentemente utilizada como uma lente simplificadora para explicar conflitos complexos no Oriente Médio. Embora a retórica religiosa esteja presente no discurso político, ela não constitui o fator central ou determinante das tensões envolvendo o Irã. “Na prática, essa ênfase excessiva na religião acaba obscurecendo as causas estruturais do conflito, que estão relacionadas à disputa por poder, influência regional e acesso a recursos estratégicos”, diz.

Segundo a docente, essa leitura reducionista reforça narrativas equivocadas, especialmente no Ocidente, ao tratar o Oriente Médio como um espaço permanentemente marcado por rivalidades religiosas, quando, na realidade, os conflitos estão profundamente enraizados em dinâmicas geopolíticas, interesses econômicos e estratégias de segurança adotadas por Estados e grandes potências.

PROGRAMA NUCLEAR E RISCOS MILITARES

O programa nuclear iraniano é outro eixo central da crise. O Irã defende seu direito ao desenvolvimento nuclear, enquanto EUA e Israel tratam qualquer avanço como ameaça existencial. O acordo nuclear firmado em 2015 mostrou que havia espaço para monitoramento e negociação, mas a saída unilateral dos Estados Unidos, em 2018, levou à retomada das sanções e ao agravamento do isolamento iraniano. “Desde então, o tema nuclear voltou a ser usado como justificativa para novas sanções e agressões diretas, como o assassinato de cientistas nucleares iranianos em 2025”, destaca Agostinelli.

Os riscos de uma escalada militar são concretos. A professora alerta que um conflito regional envolvendo diretamente Israel e Estados Unidos tornaria ainda mais instável uma região já marcada por guerras contínuas. “A chamada Guerra dos Doze Dias, em junho de 2025, acendeu um alerta nas monarquias do Golfo, que temem desestabilizações econômicas e ataques diretos em seus territórios”, afirma.

No campo diplomático, as perspectivas são limitadas, mas não inexistentes. A especialista aponta que a reabertura de canais diretos entre Irã e EUA e a retomada de algum formato de acordo nuclear seriam caminhos fundamentais para reduzir as tensões. No entanto, a desconfiança acumulada ao longo de décadas e o interesse de Israel em impedir negociações representam grandes obstáculos. “Os iranianos têm o direito de exigir mudanças internas, mas são eles que devem decidir seu próprio futuro, não potências estrangeiras”, conclui a docente da FECAP.

A especialista: Isabela Agostinelli é professora de Relações Internacionais na Fecap, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU) e do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da PUC-SP. Pesquisa temas relacionados à política externa dos Estados Unidos para o Oriente Médio, com foco em Palestina e Golfo.

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