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Correios: reestruturação depende de modernização e governança, aponta professor da FECAP

Com sucessivos resultados negativos, prejuízo de R$ 2,6 bilhões em 2024 e cerca de 85% das unidades operando no vermelho, os Correios enfrentam um...
Imprensa | 08/04/2026
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Com sucessivos resultados negativos, prejuízo de R$ 2,6 bilhões em 2024 e cerca de 85% das unidades operando no vermelho, os Correios enfrentam um cenário que vai além de dificuldades momentâneas de caixa. Para o professor Fabio Coimbra, da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), a crise atual é consequência de fatores estruturais e evidencia a necessidade de uma reestruturação baseada em modernização operacional e fortalecimento da governança corporativa.

Segundo o especialista, as causas principais do desequilíbrio financeiro não se restringem à gestão atual, mas estão ligadas ao próprio modelo econômico da estatal, que precisou lidar com mudanças profundas no setor logístico e no crescimento acelerado do e-commerce.

“As causas estruturais transcendem a gestão corrente e tocam o modelo estatal: a obsolescência do modelo econômico frente à competição logística, os encargos da universalização sem devida compensação e a necessidade de uma governança mais eficiente, que permita ajustes rápidos na operação”, afirma Coimbra.

Na avaliação do professor da FECAP, a transformação do mercado, com maior exigência por integração tecnológica, otimização de rotas e redução de prazos, ampliou a pressão sobre empresas que operam com estruturas rígidas e altos custos fixos. Nesse cenário, a manutenção de uma infraestrutura extensa, somada à perda de volume e à dificuldade de adaptação rápida, contribui diretamente para o desequilíbrio financeiro.

“A perda de volume com manutenção de base de custos fixos e infraestrutura legada gera desequilíbrio de caixa. É um sintoma matemático”, explica.

Governança e papel do conselho

Para Fabio Coimbra, o caso também expõe desafios relevantes na governança interna. Ele aponta que uma vulnerabilidade recorrente em estatais é a dificuldade de revisar continuamente se o modelo de operação atende, de fato, ao interesse público que justifica sua existência e sustentabilidade.

“A vulnerabilidade central é a miopia de risco: a dificuldade de reavaliar continuamente se o serviço, nos moldes atuais, atende ao interesse coletivo que justifica a estatal. O conselho tem dever fiduciário de exigir planos de contingência e assegurar que o modelo operacional busque equilíbrio”, destaca.

O professor reforça que mecanismos de fiscalização e auditoria, embora importantes, tendem a atuar de forma retrospectiva, identificando problemas quando eles já ocorreram. Por isso, a efetividade da governança depende da capacidade de transformar apontamentos técnicos em ações imediatas, com acompanhamento contínuo e cobrança de resultados.

“Auditoria externa e órgãos de controle atuam com viés retrospectivo. Governança efetiva converte achados em obrigações imediatas, com planos técnicos acompanhados pelo comitê de auditoria”, afirma.

Empréstimo de R$ 12 bilhões: fôlego, mas não solução

Diante do cenário de crise, os Correios recorreram à contratação de um empréstimo sindicado de R$ 12 bilhões, com garantia da União, prazo de 15 anos, três anos de carência e custo de 115% do CDI. Para o professor, a medida reduz o risco de descontinuidade e oferece liquidez no curto prazo, mas não resolve o problema estrutural.

“A captação provê liquidez e reduz risco de descontinuidade, mas, isoladamente, é paliativo. O avanço fiduciário será medido pela capacidade de condicionar o uso da liquidez à execução disciplinada de medidas estruturais”, avalia.

Caminho para sustentabilidade

Na visão do especialista, reestruturações bem-sucedidas em empresas públicas exigem combinação de modernização tecnológica, revisão profunda do modelo de negócios e disciplina na alocação de recursos. Entre as mudanças necessárias para garantir sustentabilidade no longo prazo, ele destaca a modernização da malha logística e do portfólio de serviços, além da criação de metas executivas claras orientadas à produtividade e viabilidade econômico-financeira.

Outro ponto considerado central é a transparência sobre o custo do chamado dever de universalização — ou seja, a obrigação de manter serviços em regiões pouco rentáveis.

“O aprimoramento em estatais exige segregação absoluta entre o custeio do dever público de universalização e as diretrizes de viabilidade do braço comercial. Sem isso, o debate técnico perde foco”, afirma Coimbra.

Cenários para o futuro

Segundo o professor, o futuro dos Correios vai depender de quanto a empresa conseguirá avançar em mudanças profundas. No cenário mais provável, a estatal deve usar os recursos para aliviar o caixa e reduzir gastos, mas sem alterar de forma significativa seu modelo de funcionamento. Em um cenário negativo, o dinheiro pode apenas cobrir despesas do dia a dia, sem resolver os problemas estruturais, mantendo a dependência de apoio do governo. Já em um cenário mais positivo, com reformas de gestão e modernização, os Correios podem recuperar eficiência e voltar a ter condições de se sustentar financeiramente no longo prazo.

“A saída passa por decisões técnicas sobre modelagem de negócios, integração tecnológica e reinserção de viabilidade econômico-financeira”, conclui.

O especialista: Fabio Coimbra é professor da FECAP, doutor pela FEA USP. Atua como conselheiro de administração e membro de comitês de empresas de diversos setores. Trabalhou por 21 anos no Banco Central do Brasil, ocupando posições técnicas e de liderança, com experiência internacional, incluindo passagem no BIS (Bank for International Settlements), o “banco central dos bancos centrais”, além de ter sido sócio da PwC, na prática de consultoria. É especialista em governança corporativa, gestão de riscos, compliance e temas regulatórios, em diferentes setores e contextos institucionais.

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