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O Colégio e o Centro Universitário, mantidos pela Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado - FECAP, são certificados como Entidades Beneficentes de Assistência Social na área da educação.
A discussão sobre uma possível “bolha da inteligência artificial” tem ganhado força diante do volume bilionário de investimentos em infraestrutura, chips e data centers, além da valorização acelerada de empresas ligadas ao setor. Para o professor David de Oliveira Lemes, coordenador dos cursos de tecnologia da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), o fenômeno apresenta sinais típicos de bolha especulativa, mas com particularidades que tornam o cenário atual mais difícil de classificar.
“O ciclo atual exibe características clássicas de bolha: concentração de capital em poucos ativos e otimismo projetado décadas à frente. A questão central é se esses valores estão em equilíbrio com as receitas potenciais que a tecnologia conseguirá gerar”, afirma Lemes.
O professor explica que a comparação com a bolha ponto-com, ocorrida no início dos anos 2000, é inevitável, mas exige cautela. Naquele período, empresas ligadas à internet passaram a receber investimentos massivos e avaliações altíssimas, mesmo sem receitas consistentes ou modelos de negócio sustentáveis. O entusiasmo do mercado com a “nova economia digital” inflou ações e atraiu especulação global, até que a realidade financeira se impôs e provocou uma queda brusca nas bolsas, levando muitas companhias à falência.
Segundo Lemes, a diferença é que, atualmente, as empresas líderes do setor de tecnologia operam com bases financeiras muito mais sólidas. “As empresas líderes têm caixa sólido, margens reais e receitas crescentes, o que não existia na bolha ponto-com”. Na visão do docente, é difícil afirmar com certeza se uma nova bolha está prestes a estourar, pois o cenário atual combina euforia e apostas especulativas, mas também bases financeiras e avanços concretos, o que torna a avaliação de risco mais complexa.
Investimentos trilionários e retorno ainda limitado
O crescimento da inteligência artificial generativa acelerou a corrida global por infraestrutura tecnológica. No entanto, Lemes destaca que o ritmo de investimento não acompanha, na mesma proporção, o nível de maturidade das empresas para gerar retorno real com a tecnologia.
“Um estudo da McKinsey aponta que apenas 1% das empresas atingiram maturidade real em IA, integrando a tecnologia nos fluxos de trabalho e gerando retorno financeiro mensurável”, aponta.
O professor também cita o alto custo operacional do setor, especialmente no uso de modelos avançados em larga escala. “A OpenAI gastou US$ 3,76 bilhões somente em inferência em 2024. Esse valor saltou para US$ 5,02 bilhões no primeiro semestre de 2025, além de projeções que apontam para déficit operacional até 2027”, diz.
Na avaliação do docente, o descompasso entre infraestrutura e monetização já é visível. “O investimento em infraestrutura está à frente da capacidade de monetização das aplicações. O potencial existe, mas as expectativas de retorno no curto e médio prazo estão claramente infladas”, afirma.
Expectativas irreais e o fenômeno do “AI washing”
Para Lemes, parte da euforia do mercado é alimentada por narrativas exageradas sobre o impacto imediato da IA, especialmente em relação à substituição do trabalho humano e à promessa de ganhos gigantescos em curto prazo. “O mercado está precificando o futuro mais promissor possível da tecnologia como se ele já estivesse acontecendo agora”, alerta.
O professor destaca ainda um movimento crescente de empresas que se promovem como “orientadas por IA” sem resultados concretos, apenas para atrair investidores. “Há um ‘AI washing corporativo generalizado’, em que companhias de praticamente todos os setores se declaram movidas por inteligência artificial sem evidências claras de impacto financeiro real”, diz.
Diferenças em relação à bolha da internet
Apesar das comparações inevitáveis com o colapso do setor ponto-com, Lemes reforça que a situação atual tem fundamentos mais sólidos, embora exista um risco estrutural novo: o entrelaçamento financeiro entre gigantes da tecnologia.
“Na bolha de 2000, empresas eram avaliadas com base em promessas sem receita real. Hoje, as grandes empresas de tecnologia têm lucros consistentes e clientes pagantes”, explica.
Ele aponta também que, apesar da alta valorização, os números ainda estão abaixo do nível extremo registrado no início dos anos 2000. “Em 2000, empresas líderes chegaram a valer 70 vezes o lucro esperado. Hoje, essa relação está em torno de 26 vezes, o que ainda é muito alto, mas em outro patamar”, afirma.
Por outro lado, o professor chama atenção para um aspecto inédito e potencialmente perigoso. “As grandes empresas de IA estão todas investindo umas nas outras ao mesmo tempo. É uma teia de interesses cruzados em que os mesmos atores são simultaneamente investidores, fornecedores e clientes”, diz.
Segundo ele, esse modelo pode inflar artificialmente os números e dificultar a identificação do valor real das companhias. “Hoje, são empresas sólidas, mas o entrelaçamento cria uma fragilidade coletiva que ainda não foi testada por uma crise real”, pontua.
Se estourar, o que acontece?
Caso ocorra uma ruptura no mercado, Lemes acredita que o cenário mais provável é uma correção forte, e não um colapso total. “Uma correção severa, não um colapso total, é o cenário mais provável”, afirma.
Entre os impactos imediatos, ele lista retração brusca no investimento em startups, consolidação do mercado e queda no valor de empresas ligadas a semicondutores e infraestrutura.
Os efeitos poderiam atingir a economia global, mas com limites. “A IA já responde por uma parcela relevante do crescimento econômico americano. Uma queda brusca seria sentida além do mercado financeiro, com menos contratações e menos projetos”, diz.
Ainda assim, Lemes ressalta que o risco de uma crise sistêmica como a de 2008 é menor. Naquele ano, o mundo enfrentou uma das maiores crises financeiras da história recente, causada pelo colapso do mercado imobiliário nos Estados Unidos e pela concessão de crédito em larga escala, incluindo empréstimos de alto risco. Com bancos altamente expostos e ativos “podres” espalhados pelo sistema, a quebra de confiança travou o mercado financeiro global e gerou efeitos em cadeia na economia.
“No caso de 2008, os bancos estavam no centro do problema: haviam emprestado dinheiro que não existia e, quando o esquema desmoronou, o sistema financeiro inteiro travou. No ciclo atual da IA, a maior parte do dinheiro investido é das próprias empresas, com lucros acumulados, não empréstimos. Isso reduz bastante o risco de uma crise bancária em cascata”, explica.
O legado que a IA deve deixar
Mesmo em caso de correção, Lemes reforça que a inteligência artificial tende a deixar um legado concreto, como aconteceu com a internet. Para ele, as aplicações que resolvem problemas reais e entregam ganhos mensuráveis continuarão crescendo.
“A história mostra que toda grande bolha tecnológica deixa algo real para trás. A bolha da internet destruiu empresas, mas a infraestrutura continuou existindo e sustentou a web que usamos hoje”, afirma.
Na visão do especialista, sobrevivem ferramentas que já têm impacto direto na produtividade e na sociedade. “O que tende a sobreviver é o que já resolve problemas concretos no dia a dia: ferramentas que ajudam médicos a interpretar exames, sistemas que detectam fraudes em tempo real, assistentes que aceleram o trabalho de programadores e modelos mais baratos voltados para tarefas específicas”, exemplifica.
Ele conclui destacando que o principal exagero atual não está no potencial da tecnologia, mas no tempo em que esse potencial se converterá em lucro. “O potencial produtivo da tecnologia é real. O que está inflado é o ritmo e a escala com que esse potencial se tornará lucro”, finaliza.
O especialista: David de Oliveira Lemes é doutor e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD) da PUC-SP e Bacharel em Mídias Digitais pela mesma universidade. Possui mais de 18 anos de experiência na docência no ensino superior e mais de 30 anos de atuação na área de tecnologia. É consultor na área de educação e tecnologia, já tendo atendido instituições como Insper, Escola Vera Cruz, Instituto Superior de Educação Vera Cruz, Instituto Singularidades, Editora Moderna, Grupo Santillana, Sesc, Editora Abril, Placar, TV Globo, entre outros.