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Crise na Venezuela eleva incerteza global, pressiona mercados financeiros e reforça risco geopolítico na América Latina, avalia professor

Crise na Venezuela eleva incerteza global, pressiona mercados financeiros e reforça risco geopolítico na América Latina, avalia professor
Imprensa | 07/01/2026
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A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos adicionou um novo e relevante fator de instabilidade ao cenário econômico internacional, com impactos que vão além do confronto militar em si e se refletem, sobretudo, no aumento da incerteza institucional, na reprecificação de riscos e na volatilidade dos mercados financeiros e de commodities. A avaliação é do professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP)Ahmed El Khatib.

Segundo o docente, o choque imediato provocado pelo episódio não está associado, neste primeiro momento, a uma ruptura física significativa na oferta global de petróleo, mas à sinalização de elevação abrupta do risco político na América Latina e à necessidade de o mercado reavaliar contratos, sanções e governança no setor petrolífero venezuelano. “O mercado está reagindo menos a uma guerra convencional e mais a um evento de alta incerteza institucional, com potencial de reorganizar fluxos comerciais e energéticos nos próximos meses”, afirma El Khatib.

Essa leitura ajuda a explicar o comportamento contido do petróleo logo após a escalada do conflito. No dia 6 de janeiro de 2026, o barril do Brent operava em torno de US$ 61,48, com queda de 0,5%, enquanto o WTI girava próximo de US$ 58,00, recuando 0,6%. “O investidor, por ora, está mais preocupado com volatilidade, manchetes e dinâmica de sanções do que com um colapso imediato da oferta global”, observa o financista.

Do ponto de vista inflacionário, o caso venezuelano cria um cenário paradoxal. Apesar de deter as maiores reservas estimadas de petróleo do mundo, a Venezuela tem hoje uma produção relativamente baixa, em torno de 1,0 a 1,1 milhão de barris por dia, muito distante do pico histórico registrado nos anos 1970. “O impacto inflacionário global depende menos do tamanho das reservas e muito mais do que acontece com o fluxo exportável no curto prazo e com a expectativa de oferta futura”, explica El Khatib.

Até o momento, os dados indicam um quadro fragmentado, com interrupções pontuais de embarques, retomada parcial de exportações aos Estados Unidos e manutenção de carregamentos rumo à China, o que reduz a percepção de um choque imediato na oferta. Ainda assim, o professor alerta para canais menos visíveis, mas potencialmente relevantes para a inflação global. “Mesmo sem uma disparada do Brent, a inflação pode reagir via spreads de refino, prêmios regionais, seguros marítimos e custo de financiamento das cargas, afetando rapidamente transportes e alimentos”, destaca.

No médio prazo, o mercado também passa a precificar a possibilidade de uma transição política que permita a retomada de investimentos e aumento da produção venezuelana. Estimativas citadas pela imprensa internacional indicam que, em um cenário de estabilidade, a produção poderia crescer cerca de 500 mil barris por dia em dois anos. “Essa expectativa de mais oferta adiante ajuda a entender por que o evento geopolítico, até agora, não reverteu a tendência de preços mais baixos do petróleo”, avalia.

Impactos para o Brasil

Para o Brasil, os efeitos econômicos tendem a se manifestar prioritariamente pelos canais financeiros. Em contextos de tensão geopolítica, é comum observar aumento da aversão ao risco, fortalecimento do dólar e maior seletividade em relação aos mercados emergentes. “Isso pressiona o câmbio e as curvas de juros, encarece o custo de capital, adia investimentos e reduz o ritmo de crescimento”, explica El Khatib. Segundo ele, a pressão inflacionária brasileira, neste momento, decorre mais do câmbio e das expectativas do que de um choque direto nos preços de energia.

A análise setorial aponta para uma redistribuição de ganhos e perdas. Exportadores de commodities não energéticas, como mineração, papel e celulose e segmentos do agronegócio, tendem a ganhar competitividade com um real mais depreciado. Em contrapartida, setores dependentes de consumo interno e crédito, como varejo, bens duráveis e construção civil, podem ser penalizados pela piora da confiança e pelo aumento do custo financeiro. “Aéreas e logística ficam especialmente expostas se houver deterioração simultânea de câmbio e custos de combustíveis”, acrescenta.

No que diz respeito ao fluxo de investimentos estrangeiros, o professor destaca que a crise aumenta a dispersão de capital. Parte dos recursos tende a sair dos emergentes como classe, enquanto outra parcela busca países com maior liquidez e credibilidade macroeconômica. “Para o Brasil, não se trata necessariamente de uma fuga total, mas de um aumento do custo de seletividade, em que previsibilidade e credibilidade passam a pesar ainda mais”, afirma.

Na América Latina, os impactos mais imediatos devem ocorrer no campo político e comercial, com tensões diplomáticas, ruídos em acordos regionais e reprecificação de risco para países percebidos como mais vulneráveis à instabilidade. Embora o comércio direto entre Brasil e Venezuela represente parcela pequena das exportações brasileiras, os efeitos regionais e financeiros podem ser relevantes.

O professor projeta dois cenários principais. Caso o conflito se prolongue, com instabilidade e sanções cruzadas, a tendência é de maior volatilidade, prêmio de risco elevado e condições financeiras globais mais apertadas. Já uma solução diplomática ou uma transição política com reabertura gradual do setor petrolífero venezuelano pode deslocar o foco do risco inflacionário para a possibilidade de queda estrutural do preço do petróleo no médio prazo, com efeitos mistos para o Brasil.

Por fim, o docente ressalta um fator estratégico muitas vezes subestimado: o eixo Estados Unidos–China. “Qualquer redesenho que desloque barris do circuito China para o circuito EUA altera prêmios regionais, rotas, fretes e margens, com efeitos econômicos persistentes, mesmo que isso não apareça como um pico imediato no preço do Brent”, conclui o docente da FECAP.

O especialista: Ahmed Sameer El Khatib é Doutor em Finanças e Doutor em Educação, Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais, graduado em Ciências Contábeis, Pós-doutor em Contabilidade e Pós-doutor em Administração.  É graduando e doutorando em Psicologia Clínica. É professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e professor adjunto de finanças da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

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