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Prática - Pesquisa - Ensino
ISSN  1517-7912

Volume 1  -  Número 1 (janeiro/fevereiro/março -  2000)

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NATUREZA E FONTES DO CONHECIMENTO EM ADMINISTRAÇÃO

Daniel Augusto Moreira   FEA- USP  e FECAP

O objetivo deste trabalho é apresentar e discutir a natureza do conhecimento administrativo face aos padrões usuais do que se entende por metodologia da ciência e conhecimento científico. Serão analisadas também as fontes das quais o conhecimento em Administração se deriva: as pesquisas formais, a experiência de estudiosos e praticantes e as práticas das companhias.

Com essa discussão de idéias, o que se pretende defender é que, em primeiro lugar, o conhecimento administrativo não deve ser julgado tão somente pelos critérios científicos usuais, devendo ser submetido também aos critérios de utilidade e relevância; além disso, o artigo pretende fornecer um material de apoio para professores e pesquisadores que reconheçam o papel fundamental da epistemologia para o aprendizado de Administração de Empresas.

1. A Administração é uma prática e não uma ciência

É fora de dúvida para todos os que escrevem sobre pesquisa em Administração (como por exemplo Emory, 1980; Clover e Balsley, 1974; Rigby, 1965, entre outros) que a Administração de Empresas é melhor vista como uma prática do que como uma ciência. De maneira muito esquemática e imperfeita, pode-se dizer que as ciências buscam o conhecimento como fim último, enquanto que qualquer prática orienta-se para uma situação de diagnóstico. Nesta condição, o grande objetivo da busca do conhecimento é a solução de problemas práticos pré existentes. Enquanto que na Medicina (que é uma prática e não uma ciência) a pesquisa serve para aumentar o conhecimento sobre as doenças e as formas de combatê-las ou evitá-las, na Administração de Empresas (também uma prática) a pesquisa deve ser orientada para situações de trabalho, buscando melhorar a eficácia, a harmonia entre os trabalhadores, a satisfação, etc., enfim, buscando satisfazer a determinados critérios de desempenho. Uma prática é sempre orientada para uma situação de diagnóstico, que se estabelece a partir do momento em que um problema é detectado e precisa ser resolvido. Verificado o problema, segue-se então a sua análise, o levantamento de alternativas de solução, a escolha da mais adequada e a implementação. Nessa perspectiva um tanto quanto simplista, as práticas são servidas por ciências, aplicadas particularmente a seus objetos de estudo, havendo sempre as ciências "mais típicas" de cada prática. Assim, a Medicina tem como ciência típica a Biologia e suas partições, enquanto que a Administração baseia-se pesadamente em algumas áreas fundamentais da Sociologia, da Psicologia e da Economia.

A dicotomia ciência - prática é evidentemente um artefato rudimentar de raciocínio, mas seguramente útil como quadro de referência para se tentar delinear a natureza do conhecimento em Administração de Empresas. O modelo torna-se mais realista se for admitido que as várias áreas do conhecimento movem-se ao longo de um continuum onde as extremidades são exatamente definidas pelas características puras da ciência, de um lado, e da prática, de outro. Neste sentido, qualquer disciplina de estudo pode estar em maior ou menor grau orientada para a geração de conhecimento utilitário; em linhas gerais, essa posição pode, a cada pesquisa em particular, movimentar-se numa ou noutra direção.

 

De onde vem o conhecimento em Administração?

O conhecimento em Administração é oriundo em sua maior parte das seguintes fontes:

a) pesquisas sistemáticas

b) conhecimento experiencial de pesquisadores, executivos e professores de administração;

c) práticas empresariais

2. Pesquisas sistemáticas

As pesquisas sistemáticas, quer conduzidas sob a responsabilidade das empresas (através de seus executivos ou de consultores) ou da academia, constituem-se numa fonte das mais importantes para a sistematização e o aumento do conhecimento administrativo. Na pesquisa organizada, de uma forma geral, pode-se exercitar controles não disponíveis na observação direta, nas práticas empresariais ou nas outras vias que conduzem ao conhecimento experiencial. Outra vantagem das pesquisas é a possibilidade de planejar a extensão e a profundidade do conhecimento que se está a buscar.

Tipos de pesquisa em Administração

São reconhecidos os seguintes tipos de pesquisa em Administração de Empresas, de acordo com a estrutura seguida para a coleta dos dados:

A. Pesquisa experimental

A1. em laboratório

A2. no campo

 

B. Pesquisa não experimental (estudos de campo)

B1. quantitativa

B2. qualitativa

 

2.1. Pesquisa experimental

O experimento é geralmente visto como o método mais sofisticado para o teste de hipóteses. O experimento tem sempre origem numa indagação sobre a natureza do relacionamento entre duas ou mais variáveis. A indagação converte-se em uma ou mais hipóteses, onde o pesquisador assume conhecido o relacionamento. Chama-se então de experimento ao evento planejado e levado a cabo pelo pesquisador para obter evidências relevantes ao teste de suas hipóteses, ou seja, evidências que lhe permitirão comprová-las ou refutá-las. O experimentador deliberada e sistematicamente introduz mudanças nos fenômenos naturais e então observa as conseqüências dessas mudanças. Ele manipula e controla as variáveis e mede os resultados. Colhe evidências concretas do efeito que uma variável tem sobre a outra.

Na sua forma mais simples um experimento tem três características: 1) uma variável independente é manipulada; 2) todas as outras variáveis exceto a variável dependente são mantidas constantes; 3) o efeito da manipulação da variável independente sobre a variável dependente é observado. As duas variáveis de interesse são pois a variável independente (aquela que é mudada - manipulada - pelo pesquisador) e a variável dependente (aquela que sofre os efeitos da manipulação da variável dependente).

O experimento pode ser conduzido em laboratório ou no campo. Entende-se que:

"Um experimento de laboratório pode ser definido como aquele no qual o investigador cria uma situação com as condições exatas que ele deseja ter e na qual ele controla algumas variáveis e manipula outras. Ele então (o investigador) é capaz de observar e medir o efeito da manipulação das variáveis independentes sobre as variáveis dependentes numa situação na qual a operação de outros fatores relevantes é mantida em um mínimo." Festinger, 1971, p. 9.

 

2.1.1. Pesquisa experimental em laboratório

A palavra "laboratório" deve ser aqui bem entendida. Entende-se por laboratório um ambiente artificial (embora muitas vezes dissimulado sob uma aparência de realidade), para onde são conduzidos os sujeitos (participantes) da pesquisa a fim de participarem da mesma. O ambiente é artificial no sentido de que os participantes são retirados de seu ambiente natural, ou pelo menos do ambiente onde deveriam ocorrer as influências da variável que se quer manipular. No laboratório, como não irá existir a ocorrência dos fenômenos naturais, será preciso criar determinadas condições artificiais que simulem as condições naturais. Faz parte dessa simulação a manipulação da variável cuja influência se quer estudar. A grande vantagem do laboratório é que essa simulação irá ocorrer sem a presença (ou com a presença controlada) de variáveis poluidoras que existem nos ambientes naturais. A pesquisa experimental em laboratório é bem definida e pode ser apresentada inequivocamente. É o tipo de pesquisa padrão nas ciências físicas e naturais, sendo considerada por muitos com o forma ideal de fazer pesquisa. É muito menos usada nas ciências humanas e sociais (ou na Administração de Empresas), não por uma questão de valor ou de gosto estético, mas sim por inúmeras dificuldades que costuma apresentar a manipulação de variáveis naquelas ciências.

 

2.1.2. Pesquisa experimental de campo

O experimento de campo é um estudo de investigação em uma situação real, onde uma ou mais variáveis independentes são manipuladas pelo investigador, sob condições controladas com o máximo cuidado permitido pela situação. Festinger (1971) alerta para o fato de que deve-se procurar uma distinção clara entre os experimentos de laboratório e de campo, e que essa distinção deve ser feita com base nos dois elementos principais na definição de experimento de campo dada acima, ou seja: levando em conta se existe ou não uma tentativa para criar uma situação especialmente desejável e adaptada e o grau de precisão no controle e na manipulação das variáveis. O experimento de laboratório é dotado de um controle máximo; por sua vez, os experimentos de campo operam com menos controle, fator que em geral representa alguma desvantagem.

Os experimentos de campo possuem qualidades diversas, pois se adaptam bem ao estudo de problemas sociais, organizacionais, psicológicos e educacionais de grande interesse. Não obstante, o controle da situação nos experimentos de campo raramente é tão rigoroso quanto nos experimentos de laboratório. No experimento de campo, o investigador, ainda que tenha o poder de manipulação, sempre se defronta com a possibilidade de que suas variáveis independentes estejam poluídas por variáveis ambientais que escapam a seu controle. Segue-se daí que uma das preocupações principais do pesquisador experimental de campo seja fazer com que a situação se assemelhe o mais possível da situação do experimento em laboratório.

 

2.2. Pesquisa não experimental (estudos de campo)

Não existe uma concordância perfeita quanto ao sentido a dar à expressão estudo de campo (ou trabalho de campo). Segundo uma tradição seguida por alguns, o estudo de campo diz respeito às espécies de atividades levadas a cabo pelo pesquisador de campo quando ele trata com as pessoas que são o objeto de seu estudo. O foco do interesse não está no entrevistador contratado, que é treinado como não profissional (como nos grandes levantamentos de campo com questionários, por exemplo), mas sim no próprio pesquisador e nas atividades nas quais ele se torna envolvido (Adams e Preiss, 1960). Este linha de pensamento entende o trabalho de campo como sendo de especial interesse dos antropólogos e de um segmento dos sociólogos, que convivem com as pessoas que querem estudar - para usar uma expressão bem conhecida, "tornando-se nativos" (going natives). Esta postura praticamente iguala o estudo de campo com a técnica da observação participante, na qual o investigador dispõe-se a adotar a perspectiva daqueles que são estudados, compartilhando as suas experiências do dia a dia (Denzin, 1977). O projeto de pesquisa é deliberadamente não estruturado de forma a maximizar as possibilidades de descoberta e verificação de proposições teóricas.

Embora essa tradição de pesquisa seja muito influente e tenha produzido algumas obras clássicas, na Antropologia e na Sociologia (como por exemplo Becker et allii, 1961; Whyte, 1955; Malinowski, 1922, entre outros), ela não representa toda a gama possível de estudos de campo que interessam à Administração.

Adotaremos aqui um conceito mais amplo de estudo de campo, assumindo como usual que ele se refira à observação de pessoas in situ, porém indicando com a palavra "observação" toda e qualquer técnica por meio da qual os dados sejam coletados. Assim, incluem-se todas as técnicas que tem sido empregadas para examinar o comportamento em grupos já formados naturalmente, de maneira oposta aos grupos formados ad hoc nos experimentos de laboratório. O estudo de campo é também diferente do experimento de campo; neste último, embora as observações recaiam sobre grupos naturalmente formados (como os operários de um departamento ou os vendedores de uma região), o investigador irá manipular uma ou mais variáveis independentes sob condições controladas com o máximo cuidado que a situação permita. Por outro lado, no estudo de campo, o investigador observa (coleta dados) a situação social ou institucional, sem a manipulação de qualquer variável, para poder estudar as relações entre atitudes, crenças, valores, percepções e condutas dos indivíduos e dos grupos (Kerlinger, 1973).

Essa nova conceituação, que focaliza a coleta de dados (sem manipulação de variáveis) sobre grupos que ocorrem naturalmente, parece servir muito bem à Administração de Empresas. Permite facilmente a divisão dos estudos de campo em dois grandes blocos que abrangem qualquer pesquisa: estudos quantitativos e estudos qualitativos.

 

2.2.1. Estudos de campo quantitativos

De uma forma geral, tal como a pesquisa experimental, os estudos de campo quantitativos guiam-se pelo modelo de pesquisa conhecido como hipotético dedutivo (Popper, 1972). O pesquisador parte de quadros conceituais de referência tão bem estruturados quanto possível, a partir dos quais formula hipóteses sobre os fenômenos e situações que quer estudar. Uma lista de conseqüências é então deduzida das hipóteses. A coleta de dados enfatizará números (ou informações conversíveis em números) que permitam verificar a ocorrência ou não das conseqüências, e daí então a aceitação (ainda que provisória) ou não das hipóteses. Os dados são analisados com apoio da Estatística (inclusive multivariada) ou outras técnicas matemáticas. Os tradicionais levantamentos de dados (surveys) são o exemplo clássico do estudo de campo quantitativo.

2.2.2. Estudos de campo qualitativos

Os estudos de campo qualitativos não tem um significado preciso em quaisquer das áreas onde sejam utilizados. Para alguns, todos os estudos de campo são necessariamente qualitativos e, mais ainda, como já comentado, identificam-se com a observação participante. Já foi anotado que essa conceituação é estreita demais para uso em Administração de Empresas.

Podemos partir do princípio de que a pesquisa qualitativa é aquela que trabalha predominantemente com dados qualitativos, isto é, a informação coletada pelo pesquisador não é expressa em números, ou então os números e as conclusões neles baseadas representam um papel menor na análise. Dentro de um tal conceito amplo, os dados qualitativos incluem também informações não expressas em palavras, tais como pinturas, fotografias, desenhos, filmes, vídeo tapes e até mesmo trilhas sonoras (Tesch, 1990). Para estudos em Administração de Empresas, essa conceituação pode ser adaptada. Conservando a idéia de que a pesquisa qualitativa não envolve a quantificação de fenômenos, em Administração ela pode ser associada com a coleta e análise de texto (falado e escrito) e a observação direta do comportamento. Evidentemente, existem alguns métodos mais apropriados a tal coleta e análise: entrevistas abertas, observação participante, análise documental (cartas, diários, impressos, relatórios, etc.), estudos de caso, história de vida, etc.

Mais do que tais métodos, interessam-nos aqui as características básicas da pesquisa qualitativa. Sem pretender esgotá-las, pode-se dizer que incluem (Cassel e Symon, 1994):

a) um foco na interpretação ao invés de na quantificação: geralmente, o pesquisador qualitativo está interessado na interpretação que os próprios participantes tem da situação sob estudo;

b) ênfase na subjetividade ao invés de na objetividade: aceita-se que a busca de objetividade é um tanto quanto inadequada, já que o foco de interesse é justamente a perspectiva dos participantes;

c) flexibilidade no processo de conduzir a pesquisa: o pesquisador trabalha com situações complexas que não permite a definição exata e a priori dos caminhos que a pesquisa irá seguir;

d) orientação para o processo e não para o resultado: a ênfase está no entendimento e não num objetivo pré determinado, como na pesquisa quantitativa;

e) preocupação com o contexto, no sentido de que o comportamento das pessoas e a situação ligam-se intimamente na formação da experiência;

f) reconhecimento do impacto do processo de pesquisa sobre a situação de pesquisa: admite-se que o pesquisador exerce influência sobre a situação de pesquisa e é por ela também influenciado.

Infelizmente, a pesquisa qualitativa não tem ainda o papel de destaque que deveria ter. Muitos pesquisadores a evitam, em nome de uma pretensa neutralidade científica e de um rigor metodológico mais próprio da ciência natural. Pela própria natureza do conhecimento em Administração, e pela peculiaridade de suas origens, como se verá em seguida, a discriminação que possa existir contra a pesquisa qualitativa não tem sentido algum. Embora tão bem aceitos por todos, inclusive pela comunidade acadêmica, o conhecimento experiencial e a prática das empresas - as duas outras fontes importantes do conhecimento em Administração - não guardam nenhum compromisso com os padrões usuais de fazer ciência.

3. Conhecimento experiencial

O fato do conhecimento em Administração ser orientado para situações de diagnóstico, ao invés de limitar as suas fontes, ao contrário, as amplia. O conhecimento experiencial é uma das facetas de tal ampliação. Apenas para lembrar, as práticas são o locus ideal onde o conhecimento experiencial pode se organizar em torno de conceitos bem estruturados. Entende-se aqui por conhecimento experiencial àquele que é associado ao estudioso de algum campo, mercê de sua prática, sua experiência, seus mecanismos de compreensão dos fenômenos, suas opiniões sobre o mundo, etc. Em linhas gerais, aceita-se a idéia de conhecimento experiencial desenvolvida por Anselm Strauss (Strauss, 1987), tão útil dentro das Ciências Sociais. Para Strauss, a questão básica com que o estudioso se defronta é como capturar a complexidade da realidade que ele estuda, e como fazer com que essa complexidade tenha sentido. Para essa análise, o pesquisador traz experiências de várias espécies, como por exemplo - se não for novo no jogo da pesquisa - suas habilidades já adquiridas em pesquisar. Isso não é tudo, porém:

"Igualmente importante é a utilização dos dados da experiência, que consistem não apenas do conhecimento técnico e da experiência do analista derivados da pesquisa, mas também de sua experiência pessoal. Esses dados da experiência não devem ser ignorados só por causa dos cânones usuais que governam a pesquisa (que olham a experiência e os dados pessoais como passíveis de enviesar a pesquisa), pois esses cânones levam ao empobrecimento de preciosos dados da experiência. Ao invés disso, devemos dizer: Prospecte sua experiência, lá existe ouro em potencial!" Strauss, 1987, p. 11

De onde vem, então, o conhecimento experiencial? Basicamente, vem da observação dos fenômenos administrativos, do acompanhamento constante das práticas administrativas, de leituras, de reflexões, da experiência adquirida em pesquisa acadêmica ou em consultoria, do desenvolvimento e da implantação de projetos de mudanças administrativas, etc. É um tipo de conhecimento que se abre aos poucos para os militantes de algum campo de trabalho.

Em suma, são muitas as atividades que permitem acumular o conhecimento experiencial. Por outro lado, é forçoso reconhecer que o conhecimento experiencial não depende apenas da situação que pode originá-lo, mas também da pessoa que o adquire. Pessoas diferentes submetidas aos mesmo estímulos aprenderão de forma e em intensidade diferentes.

Diferentemente do que acontece com muitas disciplinas, o conhecimento experiencial em Administração é bem aceito e até mesmo muito valorizado. É por isso que trabalhos publicados não precisam necessariamente estar ligados a uma particular pesquisa acadêmica ou mesmo a uma análise documental com dados publicados por outrém. Um exemplo muito claro e valioso de como pode se formar e ser divulgado o conhecimento experiencial é dado por Hamel e Prahalad nas notas introdutórias de seu livro Competindo para o Futuro publicado há não muito tempo pela Editora Campus (Hamel e Prahalad, 1995). O livro fez e vem fazendo muito sucesso entre praticantes e estudiosos de Administração, no exterior e no Brasil. Deixemos a palavra aos próprios autores, ao apresentar o livro:

" Durante a última década e meia, tivemos a oportunidade de interagir com dezenas de milhares de gerentes e este livro é, em grande parte, produto dessa interação. Através de uma série de programas de pesquisa, treinamento de executivos (pela London Business School, Universidade de Michigan e dezenas de empresas) e projetos de consultoria em muitas das empresas líderes no mercado mundial, aprendemos muito sobre o que é necessário para ter sucesso na competição pelo futuro. Temos uma grande dívida para com os gerentes que contribuíram para nosso aprendizado e as empresas que nos deram a oportunidade de testar nossas idéias." (Hamel e Prahalad, 1995, p. XV)

Há mais e abundantes exemplos de publicações clássicas onde as opiniões e análises do autor (baseadas primariamente em conhecimento experiencial) levaram a conceitos que a partir de então passaram a ocupar papel de destaque na teoria administrativa. É inconcebível abrir um livro texto de Marketing que não traga o conceito de miopia de marketing (Levitt, 1960). Exemplos clássicos de estruturas teóricas que nasceram de publicações baseadas no conhecimento experiencial incluem (entre tantos e tantos outros) o esquema classificatório ad hoc Teoria X e Teoria Y de McGregor (1960) e a taxonomia da matriz produto-processo de Hayes e Wheelwright (1979). Mais recentemente, um conceito nascido da experiência do seu autor ganhou popularidade mundial, gerando enxurradas de projetos e atividades (e também muita controvérsia): o de reengenharia (Hammer, 1990).

O conhecimento experiencial não pode ser julgado nos mesmos moldes em que se julga a pesquisa científica, pois não pretende ter algumas das qualidades fundamentais desta, principalmente a sistematização dos procedimentos e o controle de variáveis poluidoras. Eis o que diz Edward E. Lawler sobre um dos mais famosos livros da atualidade em Administração e sobre a potencial utilidade da pesquisa:

"... a pesquisa mais conhecida sobre a eficácia organizacional está contida no livro In Search of Excellence (Peters e Waterman, 1983). De um ponto de vista metodológico, esse livro é um desastre (não há grupo de controle, as medidas não são especificadas, e assim por diante).

A sugestão aqui é que se a pesquisa deve ao mesmo tempo contribuir para a teoria e a prática, ela deve ser projetada para atingir tal objetivo. Não se pode simplesmente tomar como um questão de crença que aderindo a certos princípios da pesquisa científica levará à pesquisas úteis." (Lawler, 1985, p. 2)

Pouco depois, Lawler retorna ao tema, de uma forma ainda mais clara (grifo nosso):

"A pesquisa em comportamento organizacional tem numerosas características que a tornam diferente da pesquisa nas ciências físicas e biológicas. O estudo das organizações e das pessoas que nelas estão é um processo interativo muito mais complexo do que o estudo da maior parte dos fenômenos físicos e biológicos. As pessoas nas organizações não se tornam assuntos no mesmo sentido em que animais, neutrons, e substâncias químicas são assuntos. Essas pessoas constituem uma parte ativa no processo de pesquisa e, como tal, a influenciam muito diretamente. Dada tal diferença, parece bem possível que o que seja uma boa abordagem de pesquisa para contribuir para a teoria e conhecimento científico nos campos tradicionais da ciência possa não ser uma boa abordagem para se trabalhar com organizações." (Lawler, 1985, p. 2)

4. Práticas empresariais

As empresas evidentemente não ficam tão somente na dependência do conhecimento advindo da pesquisa acadêmica. Elas estão sempre tentando novas fórmulas de trabalho, pesquisando melhorias, estruturando a busca e o refino de informações, tentando novos projetos, novas formas de análise de seu desempenho e de seus processos, etc. Um conhecido exemplo é a prática do benchmarking, originada na Xerox Corporation (Camp, 1993); outro exemplo é o famoso sistema Toyota (Shingo, 1989).

Dessa movimentação nascem conceitos e técnicas que são apreendidas pelo meio acadêmico e de consultoria, havendo um fluxo contínuo de troca e elaboração de informações. Em muitos casos, a origem da idéia ou do conceito virtualmente desaparece, à medida que a elaboração vai se processando, com muitas e muitas colaborações (o movimento da qualidade total é um exemplo, o conceito e a prática de Quality Function Deployment é outro, etc.).

Na verdade, em algumas áreas é possível que a prática lidere a teoria ou pelo menos a preceda; entretanto, os avanços na prática e na teoria não indicam necessariamente que a prática lidera a teoria ou vice versa. Tanto uma coisa como outra podem acontecer, e isso é comum em Administração. Há poucos campos de trabalho onde o conhecimento tem um público consumidor de "praticantes" - empresas, consultores, gerentes, etc. - como é a Administração. Esses praticantes, é claro, não permanecem parados à espera de teoria. Portanto, quem trabalha com estudos em Administração tanto tem que focalizar o desenvolvimento de nova teoria (que deverá guiar a prática das empresas), como deve ir às empresas para estudar suas práticas e sistematizar teoria, à maneira de etnógrafos e antropólogos.

A propósito, na primavera de 1995 o Board of Directors da AACSB - American Assembly of Collegiate Schools of Business (uma associação que reúne as melhores escolas dos EUA e que dita padrões de qualidade no ensino de Administração em todo o território americano) nomeou uma força tarefa para pesquisar as necessidades de desenvolvimento e liderança do corpo docente das escolas americanas de Administração e para determinar qual era a melhor forma de satisfazer tais necessidades.

A força tarefa acabou por identificar alguns sintomas que podiam refletir os problemas das escolas de administração e seus corpos docentes. Um dos sintomas mais importantes era a ausência de contacto dos professores com o mundo real dos negócios, ausência essa expressa pelos elementos seguintes (AACSB, 1996):

a) A prática da indústria freqüentemente está adiante das escolas de Administração - o meio altamente mutável dos negócios americanos tem forçado as companhias a reavaliar todos os aspectos de suas operações.

b) Tem aumentado a crítica das empresas sobre a irrelevância do currículo e da pesquisa nas escolas de Administração.

c) Parte do corpo docente não entende o meio econômico e tecnológico global.

d) Alguns membros do corpo docente evitam se relacionar com empresas. A exceção está naqueles que se engajam em consultoria intelectualmente vigorosa.

É um dos grandes méritos da pesquisa da AACSB o de apontar a necessidade de inter-relacionamento entre professores de Administração e a prática empresarial. O relatório também aponta que uma das formas óbvias de manter contacto com as empresas é através de consultoria. Entretanto, coloca a consultoria numa dimensão muito nítida e recomenda cuidado:

"Uma forma de ficar a par dos desenvolvimentos em uma disciplina é através de consultoria com organizações de negócios ou serviços em áreas relacionadas com aquela disciplina. Enquanto que a consultoria repetitiva nos mesmos assuntos pode tomar tempo substancial dos membros do corpo docente e não contribuir para a excelência do conhecimento, a consultoria de ponta melhora a relevância do conhecimento do professor, seu entendimento das atitudes e problemas das empresas e sua capacidade de levar a cabo ensino e pesquisa relevantes. As consultorias também fomentam o relacionamento entre a escola e a companhia, o que pode ajudar na colocação dos egressos, no financiamento de pesquisas e nas fontes de novas idéias.

... Obviamente, órgãos colegiados e administradores escolares devem tomar cuidado para não permitir que as consultorias substituam o devotamento à pesquisa, o envolvimento institucional e o ensino de qualidade. Qualidade e diferentes níveis de consultoria, entretanto, podem ter um impacto positivo na pesquisa, ensino e serviços da instituição. Constitui-se também numa forma básica de trazer as melhores práticas de negócios para dentro da escola, através de professores que estejam continuamente conscientes dos problemas de negócios, temáticas e práticas." (AACSB, 1996, p. 10)

Quais são as principais diferenças entre consultoria e pesquisa acadêmica? O Quadro I abaixo lista uma série de fatores que tem tratamento diferenciado na pesquisa e na consultoria. Talvez de todos os fatores citados o mais característico seja a propriedade da informação. Como a empresa contratante paga pelo serviço, ela usualmente exige sigilo do consultor, impedindo contratualmente a divulgação das informações sob quaisquer formas, ou condicionando a divulgação à aprovação prévia de quem de direito dentro da organização.

Ora, como apenas a publicação pode abrir caminho tanto para a verificação da qualidade da informação, como para seu efetivo uso e utilidade, poder-se-ia argumentar que a prática da consultoria é de pequeno valor ao pesquisador e ao público consumidor de informações. Isso não é necessariamente verdade; os esforços de consultoria podem ser muito importantes, desde que os resultados não sejam repetitivos ou triviais. Mesmo que os resultados da consultoria não possam ser publicados, o consultor poderá aumentar o seu conhecimento experiencial, gerando uma base para publicações. Hamel e Prahalad, na obra já citada,

QUADRO I - PRINCIPAIS DIFERENÇAS ENTRE PESQUISA ACADÊMICA E CONSULTORIA

Fator

Tratamento na Pesquisa

Tratamento na consultoria

Problema

Escolhido principalmente pelo pesquisador; costuma ser mais aberto, particularmente na pesquisa exploratória.

Escolhido principalmente pelo cliente, às vezes numa base conjunta com o consultor.

Escala de tempo

Usualmente admite alguma flexibilidade

Mais rígida e apertada

Produto final

Novos conhecimentos, novas teorias e (talvez) melhores práticas

Melhores práticas de gerência

Propriedade da informação

Usualmente disponível ao público

Freqüentemente confidencial

Processo de decisão com respeito à tarefa principal

O foco pode mudar, sob o comando do pesquisador, embora obedeça a um plano geral.

Os limites de mudança são mais rígidos.

Rigor acadêmico

A pesquisa é metodologicamente apertada

Nível mínimo apropriado ao problema.

Avaliação de resultados

Externa, feita por colegas da comunidade acadêmica

Interna, pela companhia contratante.

Fonte: Bennett, 1983, página 18

informam que sua primeira pesquisa conjunta aconteceu para uma grande companhia norte americana. Após o estudo, a empresa negou-se a liberar as informações específicas, mas ainda assim as idéias geradas durante o processo tornaram-se a base para o artigo Do You Really Have a Global Strategy?, publicado em 1985 na Harvard Business Review. Entre outros artigos de destaque publicados na Harvard Business Review, essa interação entre pesquisa e consultoria renderiam a Hamel e Prahalad os trabalhos Strategic Intent (1989) e The Core Competence of the Corporation (1990), ambos ganhadores do prêmio McKinsey, sendo este último o artigo mais reimpresso da história da revista.

 

5. Conclusão

Há alguns fatores (em parte interligados) que devem ser levados em conta em qualquer análise epistemológica dentro do campo da Administração de Empresas. Em primeiro lugar, não estamos tratando com uma ciência no sentido mais conhecido do termo, mas sim com um campo de estudo ou aplicação, ou seja, uma prática. O conhecimento em Administração tem um fim: ele é gerado para que possamos entender, explicar e tornar mais eficaz a prática gerencial. Destarte, esse conhecimento tem um público certo e definido ao qual se destina, além da própria comunidade acadêmica. Atentos ao seu desenvolvimento estão não apenas professores e pesquisadores, mas também gerentes, administradores, consultores, executivos e empresários. Quanto mais complexo for o meio empresarial, o ambiente no qual as empresas devem trabalhar, mais dinâmica será a geração do conhecimento.

Em segundo lugar, deve-se levar em conta que, estando o conhecimento em Administração ligado tão de perto à geração de bens e serviços, é inevitável a existência de uma interface muito ativa entre a academia - que conduz pesquisas - e as companhias, que fazem tentativas com a implantação de práticas gerenciais. De um e de outro lado, o critério final de aceitação do conhecimento deve ser a sua relevância para o melhor domínio da função gerencial.

Nessa perspectiva, o conhecimento experiencial dos estudiosos da Administração formará, ao lado das pesquisas formais e da prática empresarial, como mais um gerador do conhecimento. A Administração passa a contar com uma verdadeira linha de frente, formada pelos gurus desta ou daquela abordagem: versões alternativas de soluções destinadas a problemas mais ou menos comuns percebidos como relevantes.

Esse contexto é importante tanto para o ensino da Administração como para a avaliação do conhecimento administrativo. O ensino será tanto mais proveitoso quanto melhor se entender a natureza do objeto de estudo. A crítica do conhecimento passa pela análise da forma como ele foi gerado.

Por outro lado, o conhecimento administrativo não poderá ser julgado apenas pela obediência ou não aos padrões positivistas clássicos da pesquisa científica. A integração teoria - prática não apenas é forte demais, ela é indispensável. É impossível entender e trabalhar com Administração sem aceitar essa integração. E, ao fazer isso, os critérios de julgamento do conhecimento administrativo devem se alargar, regendo-se não só pelo rigor da ciência, mas também pela relevância e utilidade que esse conhecimento possa apresentar.

 

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